Observando tudo o que vem acontecendo no nosso país e todas as formas de manifestações e mobilizações nas redes sociais, preciso dizer que fiquei tão surpresa quanto feliz quando soube do tema da redação do Enem deste ano.

Manipulação do Comportamento do Usuário pelo controle de dados na internet, um tema que certamente em algum momento já foi debatido algumas vezes – principalmente após notícias sobre os vazamentos de dados do Facebook – mas nunca devidamente aprofundado.

Digo devidamente aprofundado porque se trata de um assunto muito sério. Diariamente estamos compartilhando nossas preferências e formas de pensar, nossas angústias, nossas curtidas, nossos memes, enfim. Atualmente o Facebook virou o nosso divã, nosso lugar para catarses.

Encontramos pessoas que pensam parecido, vemos como está a vida das pessoas que gostamos –  e até das que não gostamos muito – falamos com pessoas distantes, etc. Mas as redes sociais são muito mais do que facilitadores das interações humanas, elas guardam um grande banco de dados a respeito de nossas vidas.

Com os dados que as redes sociais coletam ao nosso respeito, eles saberão – por exemplo – qual livro gostaríamos de comprar, qual marca de roupa mais gostamos ou quais promoções nos seriam irresistíveis.

É como se as redes sociais fossem vitrines de lojas mas nós fôssemos os produtos.

Estamos nos mostrando, dizendo o que gostamos, o que não gostamos, o que pensamos, o que desejaríamos ter, etc.

Desta forma, as empresas conseguirão ter uma ideia de nossas preferências e condições socioeconômicas para nos fazer as suas ofertas.

Essa arquitetura das mídias sociais, chama-se viés do Algoritmo.

O Viés do Algoritmo

O Viés do algoritmo ocorre quando são computadorizados e perfilados os valores humanos explícito a partir de manifestações em redes sociais. A partir de simples informações, se consegue analisar as pessoas em um nível social, econômico, cultural e comportamental.

É exatamente esse viés que faz o Google mostrar promoções de produtos que você comentou com seu amigo que precisava comprar.

As palavras que você usa, as ideias que compartilha, as páginas que curte, os memes que compartilha: tudo isso compõe a imagem que o Google, o Facebook – e outras empresas gigantes que controlam internet  -têm de você.

O grande problema?

O grande problema é que esse viés afeta diretamente a nossa liberdade.

Em um mundo tão plural, onde pessoas pensam tão diferente de nós (e muitas vezes são extremas, cruéis e completamente irracionais) o que faz com que as redes sociais não sejam um vetor de mal estar constante? você já pensou sobre o que ainda nos mantém nas redes sociais?

Esse viés também é responsável por vermos mais as postagens de nossos amigos com os quais concordamos e recebermos mais notícias que compactuam com a nossa forma de pensar, minando, quem sabe, nossa capacidade de nos confrontarmos com notícias que possam nos dar uma nova forma de pensar. Até nossas pesquisas no Google são rankeadas de acordo com quem somos, nosso sexo, posição geográfica, idade, etc.

Esse viés nos mantém em nossa bolha de convicções e fortificam concepções que muitas vezes estão equivocadas por meio do viés da confirmação de evidência.

Viés da Confirmação de Evidência

Imagine um julgamento. Lá encontraremos alguns personagens de grande relevância para o andamento do julgamento: um advogado de defesa e um promotor.

O advogado de defesa irá a procura de todos os argumentos possíveis para que o réu seja declarado inocente.

O promotor, no entanto, procurará fazer todas as observações possíveis que declarem o réu culpado.

Os depoimentos serão os mesmos para ambos,

O réu é o mesmo para ambos, mas os lados são opostos: enquanto um pretende inocentá-lo, outro pretende condená-lo.

O olhar de ambos os personagens, mesmo olhando o mesmo quadro, se atentará a elementos completamente diferentes: sinais de inocência ou sinais de culpa e este é o viés da confirmação de evidência.

O Viés da confirmação de evidência ocorre quando já temos uma ideia predefinida sobre algo ou alguém e procuramos todas as evidências que possam nos informar que estamos corretos, negligenciando toda e qualquer fonte de informação que combata a nossa forma de pensar.

E sobre o tema do Enem? onde está a armadilha do Viés da Confirmação de Evidência?

A internet, ao coletar os nossos dados e nos colocar inertes em nossa bolha de convicções, torna as ideias altamente contrastantes às nossas quase impenetráveis.

O nosso Sistema 1 – o rápido, emocional e impulsivo – faz com que acolhamos de imediato o que converge com nossas ideias e que não precisa ir muito longe: as notícias que acreditamos aparecem com mais facilidade em nosso feed, reforçando o nosso status quo e nos mantendo na zona de conforto de nossa própria forma de pensar. Com isso:

  • Não sentimos desconforto a ponto de abandonar as redes sociais.
  • Nos sentimos bem quando em contato com pessoas e ideias que convergem com o que acreditamos.
  • Com nossas ideias cristalizadas, recebemos atualizações de mídias e ofertas de produtos que tendemos a aprovar.

O tema do ENEM nos trouxe um problema muito atual e abre um espaço para a reflexão sobre até que ponto realmente temos liberdade de expressão, escolha e pensamento, já que o viés do algoritmo nos direciona a encontrar apenas o que compõe nossa visão de mundo e o viés da confirmação de evidência nos impulsiona as abraçar nossas crenças pré- estabelecidas.