Entenda como o excesso de confiança pode atrapalhar na tomada de decisão e no resultado dos seus investimentos.

Ter confiança é importante, seja na vida pessoal ou nos negócios. É um dos motores que podem quebrar a paralisia ou o medo de arriscar, e te mover pra frente. Nesse post, o Anderson discorre muito bem sobre o aspecto positivo e a atenção que devemos ter com o excesso de confiança no dia-dia.

dunning-kruger effect

Efeito Dunning-Kruger: quando não há conhecimento, é importante ter confiança

Mas a confiança excessiva pode te colocar em maus lençóis, como tomar riscos desnecessários ou tomar decisões ruins, e o que é pior, deixando-o cego para os resultados negativos obtidos.

Nesse primeiro post vou dar alguns exemplos de como o excesso de confiança interfere na tomada de decisão e no nosso comportamento.

Mas qual é o efeito do Excesso de Confiança ?

O Excesso de Confiança se manifesta quando as pessoas sobre-estimam o conhecimento próprio, subestimam os riscos envolvidos e colocam peso excessivo nas habilidades capazes de controlar os eventos. Ele também é muito parecido com o Viés Otimista, cuja percepção do futuro é sempre positiva e que os planos traçados vão dar certo e não seremos acometidos por nada de ruim.

Um exemplo muito famoso que é usado para exemplificar o excesso de confiança, é um experimento de 1981, do cientista Ola Svenson, onde os participantes deveriam responder a seguinte questão:

Você se considera um bom motorista? Comparado com outros motoristas que você se depara nas ruas, você esta abaixo da média, na média ou acima da média?”

Como você responderia essa questão?

No estudo que foi publicado, cerca de 82% se consideram acima da média, o que claramente não pode ser possível. Se quase todo mundo esta acima da média, logo, não há média, ahhahaha.

Vale frisar aqui, que existe uma boa discussão sobre os detalhes do que é levado em consideração para se declarar um bom motorista, mas isso é um assunto pra outro post.

É claro que ter um excesso de confiança na sua habilidade em conduzir um veículo pode não ser um problema na sua vida, mas o excesso de confiança em outras habilidades, sim.

O Excesso de Confiança no mercado 

Iniciar um novo negócio é mais que difícil. É a luta diária contra o insucesso, uma vez que estatisticamente a maioria das empresas quebram nos primeiros cinco anos de operação. Em uma pesquisa com donos de empresas recém-fundadas, foi perguntado sobre as chances de sucesso deles. Eles achavam que tinham cerca de 70% de chance de o negócio dar certo. Mas o interessante é que eles disseram que as chances de uma empresa como a deles dar certo era por volta de 39%.

Por que os novos empreendedores pensavam que suas chances eram quase o dobro dos outros?

Pessoas com excesso de confiança sentem que possuem o controle dos resultados e dos eventos, mesmo quando claramente não possuem.

Ellen J. Langer conduziu um experimento simples e muito interessante. Foi perguntado aos participantes para apostarem no resultado de um “cara ou coroa” em um lançamento de uma moeda. As quantias de apostas mais altas eram feitas se a moeda ainda não havia sido lançada, ou seja, eu pergunto e depois eu lanço; mas se a moeda é lançada e depois a pergunta para apostar no resultado é feita, as pessoas ofereciam quantias mais baixas.

Notem que as pessoas se comportam como se o seu envolvimento afete o resultado de alguma forma. Nesse caso, o controle sobre o resultado é claramente uma ilusão. Não há nenhuma informação relevante que as façam acreditar em algo que interfira no resultado e justifique essa alteração de quantia na aposta.

Esse tipo de comportamento também é visto no mercado financeiro. Mesmo sem informação, as pessoas tendem a acreditar que suas ações irão se sair melhor do que as ações que eles não possuem. É a ilusão de estar no controle.

Em uma pesquisa conduzida pela Gallup/Paine Webber com investidores, logo após o estouro da bolha ponto com, foi perguntado aos participantes sobre a expectativa de retorno do mercado e do portfólio deles nos próximos 12 meses. A média das respostas era de 10,3% para o mercado e de 11,7% de retorno para o portfólio que possuíam.

Cara, eu ganho. Coroa, há uma chance

Um problema crucial que os psicólogos encontraram no viés de confiança é o impacto que existe na experiência passada com a expectativa e previsões do futuro.

Um dos mais poderosos e perniciosos de muitos vieses cognitivos que tem sido descoberto pelos cientistas comportamentais é o viés de retrospecto (hindsight bias). – Richard Thaler

O viés de retrospecto acontece quando novas informações distorcem nossa lembrança de um fato. Esse viés pode levar a julgamentos distorcidos sobre a probabilidade de ocorrência de um evento. É o que Nassim Taleb chama de fazer previsões olhando no retorvisor: depois que o fato ocorreu achamos que sabíamos que ele poderia ocorrer.

O viés do retrospecto também pode fazer com que as pessoas se recordem mais dos acertos do que dos erros; ou então quando erram, ainda assim, elas falham em recordar as previsões que fizeram criando narrativas para se sentirem mais inteligentes. Foi o que o psicólogo Baruch Fischhoff notou em um dos seus experimentos, e foi um dos primeiros a investigar o viés do retrospecto.

Eis como o viés de confiança atua junto com o viés de retrospecto: mesmo quando você se recorda dos seus erros, você pode lembra-los de uma maneira que altera sua percepção e implicações sobre o futuro, aumentando mais a confiança em si mesmo

Ellen Langer descreve esse fenômeno como “Cara, eu venço. Coroa, há uma chance.” A ideia é que quando os eventos ocorrem corroborando suas crenças ou ações, você atribui a causa desses eventos às suas habilidades. Mas quando os eventos ocorrem provando que suas crenças e atos estavam errados, você atribui estes eventos outras causas que não estavam sob seu controle.

E aí é que mora o perigo. Os acertos do passado alimentam a confiança do investidor, fazendo-os acreditar que o seu conhecimento, a interpretação das informações e suas habilidades foram a causa do sucesso. O que até pode acontecer, e acontece, mas não é a regra.

Nesse ponto, o excesso de confiança leva os investidores a realizar operações (trade, ou simplesmente compra ou venda de ações) ruins, como por exemplo trades excessivos, exposição excessiva ao risco e perda do portfólio. No artigo dos professores de finanças da Universidade da Califórnia, Brad M. Barber e Terrance Odean, os autores concluem que o excesso de confiança aumenta a quantidade de operações porque os investidores passam a ter muita certeza sobre suas opiniões e convicções; lembrando que essas opiniões derivam das crenças que possuem independente das informações que obtiveram e a habilidade para interpretá-las. Com isso, os investidores com excesso de confiança acreditam muito mais em sua própria avaliação sobre uma ação e se preocupam cada vez menos com as crenças e opiniões dos outros.

Vimos que a tomada de decisão com base em informações não significativas é algo perigoso. Mas será que quanto mais informações obtemos, e consequentemente mais operações realizamos, significa que obtemos melhores retornos nos investimentos? E como será que passamos a nos comportar em relação a nossas previsões quando o excesso de confiança está em jogo?

É o que falaremos na parte 2 🙂

Por enquanto, estufem o peito, sintam-se confiantes e deixem aquele comentário sobre o que acharam desse primeiro texto nos comentários logo mais abaixo 🙂