Trump anunciou a imposição de tarifas comerciais mais elevadas à China. Este aumento está estimado em USD 50 bilhões, uma cifra nada amigável ao comércio e demais relações políticas e diplomáticas entre os dois países. Mas pensando um pouco aqui em termos de estratégia, pode até ser que Trump esteja dando passos interessantes na defesa dos interesses dos EUA.

Fiquei pensando na estratégia do Trump (se é que ele tem alguma) em relação à Teoria do Prospecto (Prospect Theory) em Economia Comportamental e algumas constatações não deixaram de ser perturbadoras.

Vamos pensar que nesta semana (11/06/2018) aconteceu a espetaculosa e cheia de mistérios reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un Presidente da Coreia do Norte. Quem acompanha o noticiário vai lembrar que o Sr. Kim esteve recentemente na China em visita quase secreta, onde segundo consta estaria interessado em refazer a proximidade entre as duas nações, estremecida desde tenções territoriais e embates bélicos acerca do programa nuclear norte coreano.

Pode até ser coincidência, mas pouco tempo depois de o mundo ver a versão soft de Kim Jong-un retomar relações diplomáticas com a China, vemos Trump forçando uma reunião e decidindo em seguida sobretaxar a China comercialmente. A meu ver essa taxação à China nada mais é do que uma excelente forma de pressão.

Posso estar ficando maluco, mas parece que estamos diante de uma estratégia do quanto pior melhor e a meu ver isso tem tudo a ver com a Teoria da Prospectiva (Kahneman & Tversky, 1979). Um artigo do jornal The Atlantic que trata do mesmo tema sob ótica diferente resumiu de maneira muito interessante a Teoria da Prospectiva de Kahneman & Tversky. Reproduzo abaixo:

A teoria da perspectiva explora como as pessoas tomam decisões sob considerações de risco variável. Sua principal descoberta (pela qual Kahnemann e Tversky receberam o Prêmio Nobel de Economia) é que tendemos a ver “aversão ao risco em escolhas envolvendo ganhos seguros e busca de risco em escolhas envolvendo perdas seguras”. Isto é, as pessoas são mais tolerantes ao risco quando tentam recuperar o que foi perdido. Assim, um apostador que está ganhando se limita a resultados probabilisticamente mais prováveis ​​(apostas mais seguras), aumentando assim a probabilidade de ganhos contínuos (uma sequência vencedora). Mas um jogador que está perdendo apostar cada vez mais, desesperado para reabastecer suas perdas e fazendo apostas cada vez mais arriscadas. 

KORI SCHAKE

The Atlantic

Notaram como o comportamento do Trump pode estar sendo pautado fortemente pelo fato de ele ter perdido terreno na diplomacia internacional? Notadamente quando nos referimos à Coreia do Norte, vide ameaças até mesmo bélicas feitas de forma nada velada pelo ditador Kim Jong-um com seus testes nucleares e de mísseis de longo alcance?

A taxação à China, impõe ao país, perda de competividade no comércio e fortalece do fluxo financeiro de volta aos EUA. Como Trump propagandeava em sua campanha: Make America Great Again (Faça os EUA grande novamente) e como muitos já haviam relatado que há um plano de trazer os empregos e indústrias de volta para os EUA….

A China que se cuide, pois Trump parece querer a todo custo minar a influência política e o crescente protagonismo chinês no mercado internacional. Para isso, parece que Trump está disposto até mesmo a pressionar de forma irascível o Norte Coreano Kim, exigindo de forma diplomática cada vez mais concessões nos acordos. É quase como se Trump tivesse partido para uma espécie de tudo ou nada nas negociações.

Acuado pelas constantes pressões e aumento da relevância chinesa na economia internacional, bem como dos movimentos bélicos irascíveis de Kim e agora mais recente pela reaproximação China – Coreia, Trump se fragiliza cada vez mais nas negociações.

O que eu acho honestamente?

Toda aquela encenação de misseis Norte Coreanos não me convenceram. Me arrisco a dizer que foi mero blefe para forçar os encontros diplomáticos, estando em melhor posição para negociar com os gigantes EUA e China. Mas essa estratégia pode ter dado errado para China e Coreia, na medida em que estando acuado e já praticamente enterrado no campo das perdas, Trump, que não é nenhum exemplo de temperança e racionalidade, sinaliza já um certo desespero para reverter sua posição fragilizada nas negociações.

Um sinal claro de que Trump já assume mais riscos do que deveria, ancorado pelas constantes perdas nas negociações com China e Coreia, pode ser visto no Twitter, alguns exemplos abaixo:

FIRE AND FURY (FOGO E FÚRIA)

TRADUÇÃO LIVRE: O líder norte-coreano Kim Jong Un acabou de declarar que o “Botão Nuclear está em sua mesa o tempo todo.” Alguém de seu regime exausto e faminto por comida, por favor, informe que eu também tenho um Botão Nuclear, mas é muito maior; mais poderoso que o dele, e meu Botão funciona!

NÃO SOMOS AMIGOS

TRADUÇÃO LIVRE: Por que Kim Jong-un me insultaria ao me chamar de “velho”, quando eu nunca o chamaria de “baixo e gordo”? Oh, bem, eu tento tanto ser amigo dele – e talvez um dia isso aconteça!

E assim chegamos a um momento interessante. Na mesa temos a Coreia do Norte, doida para se transformar numa ditadura social-capitalista, mas ainda sem apoio do Status Quo capitalista no mundo. EUA descendo a ladeira e disposto e endurecer o que for necessário para manter sua posição hegemônica e possivelmente Trump no terreno das perdas arriscando tudo para ter algum ganho, por menor que possa ser. E por fim a China, um país enorme, com crescimento enorme, mas que depende do mundo todo e de algo mais, afinal num mundo capitalista, não basta apenas produzir, tem que vender também.

A cena vai ficando cada vez, mas interessante e perigosa. O que esperar desse imbróglio? Certamente nada menos do que algo imprevisivelmente irracional.

Até o próximo post.

REFERÊNCIAS

The Atlantic: Trump’s North Korea Gamble Is a Real-Time Experiment – LINK: https://www.theatlantic.com/international/archive/2018/06/trumps-north-korea-gamble-is-a-real-time-experiment/561794/

Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect theory: An analysis of decision under risk. Econometrica, 47, 263-291.