Não sei se já cheguei a comentar por aqui, mas quem acompanha o perfil do Geekonomics nas redes sociais deve ter percebido que eu adoro ler jornais. Revistas também, mas jornais sem dúvida são meus preferidos. Em especial nos últimos meses tenho estado viciado na coluna da articulista do Wall Street Journal, Peggy Noonan. Na edição de final de semana do jornal, ela trouxe mais um artigo muito interessante e bem escrito, onde comenta que o GOP (Partido Republicano) precisa de artistas e não de economistas.

A definição da articulista é irretocável. Com escrita dinâmica e ritmo alucinante, ela apresenta análises complexas, que estimulam avançar no texto ao contrário de muitos outros que vão sugando nossa determinação com textos chatos e enfadonhos. Mas especificamente sobre este artigo onde Peggy Noonan comenta que os Republicanos precisam de artistas e não de economistas (Republicans Need Artists, Not Economists), eu gostaria de discordar em parte.

Em determinado ponto Peggy, menciona que:

“​Eles [os artistas] não se perdem em fatos e facetas de problemas, eles tentam ver a coisa toda. Eles tentam capturar a realidade. Eles são criativos, intuitivos; eles fazem saltos, estudam a natureza humana.”.

(Wall Street Journal, pág. A13 Saturday/Sunday, April 14 - 15, 2018).

No geral eu concordo com os argumentos da articulista, mas acredito que o verdadeiro perfil de que os Republicanos precisam, é sim de um economista. Porém não de um economista qualquer, com foco puramente financista ou mercadológico. Eu acredito que os Republicanos precisam mesmo é de Economistas Comportamentais.

A própria definição usada por Peggy Noonan, se parece muito com a proposta de atuação de economistas comportamentais, estes preocupados com ver de forma abrangente o ambiente, altamente preocupados em captar a realidade, utilizando para tanto de um rigoroso estudo da natureza humana e criatividade.

Claro que lendo o artigo como um todo, podemos até pensar que artistas, no conceito utilizado por Noonan estejam próximos daquilo que um economista comportamental estuda. Afinal de contas se pensarmos as artes cênicas, como citado no artigo, veremos que da mesma forma que a literatura, o resultado final deriva da realidade.

O cinema, a literatura e o teatro, são representações da realidade, da vivência dos autores e roteiristas e expressam em última análise sua visão de mundo com base nas experiências vividas transmutadas para seus personagens. No entanto, não podemos esquecer que a matéria prima dos autores e roteiristas pode ser a realidade, mas esta, é recheada de um ingrediente que partidos políticos não podem demandar para dar cabo de suas receitas e planos de governo: a ficção.

Peças e textos são incrementados com doses maiores ou menores de ficção dependendo da história e do perfil de quem escreve. Neste ponto é que julgo ser importante a consideração. Política não é lugar para utilizar ficção, seja em doses maiores ou menores.

A felicidade do artigo de Noonan é ter utilizado a definição muito pertinente e aderente à proposta de atuação dos Economistas Comportamentais. Estes, mais que críticos, propõem ir além de simplificações, buscando incrementar os modelos econômicos para contemplar muito além do Ceteris Paribus. Aos ainda não familiarizados com o termo, ceteris paribus é uma expressão do latim que pode ser traduzida por “todo o mais é constante” ou “mantidas inalteradas todas as outras coisas.

Mas não se trata apenas da postura crítica dos economistas comportamentais em avaliar a realidade econômica. Trata-se do fato de estes, se recusarem a aceitar a ficção com parte de seu trabalho. Utilizando de todo método científico e com apelo multidisciplinar, os economistas comportamentais têm elevado o patamar das teorias econômicas.

Neste trabalho, os economistas comportamentais, se apropriam do conhecimento da psicologia, antropologia, neurociências e daquilo mais que se mostrar necessário e útil à compreensão cada vez mais precisa do funcionamento das pessoas e dos mercados. Aqui, diferente dos artistas citados pela articulista Peggy Noonan do Wall Street Journal, não há lugar para ficção, mas sim para ciência.

Vou finalizando por aqui deixando minha contribuição humilde para o artigo da espetacular Peggy Noonan. E como sou um eterno ïnfectado”pelo viés do excesso de confiança, me atrevo a deixar um conselho:

“Não pense em artistas, pense em Economistas Comportamentais.”

Deixo um trecho do artigo publicado no Wall Street Journal por Peggy Noonan, aos interessados:

“​Muitas vezes, quando falo, as pessoas perguntam, no final, sobre Ronald Reagan. Costumo dizer o que escrevi; que a chave para compreendê-lo é que ele se viu nos primeiros 40 anos de sua vida – os anos em que você se tornou você mesmo – como um artista.

Quando jovem, escreveu histórias curtas, desenhou, foi atraído por peças de teatro, atuou na faculdade, foi para o rádio e se tornou um ator profissional. Ele chegou à maturidade em Hollywood, uma cidade de artesãos e artistas. Ele identificou-se completamente com eles.

A coisa sobre artistas é que eles tentam ver a forma real das coisas. Eles não se perdem em factos e facetas de problemas, eles tentam ver a coisa toda. Eles tentam capturar a realidade. Eles são criativos, intuitivos; eles fazem saltos, estudam a natureza humana.

Já foi dito que um grande líder tem mais em comum com um artista do que com um economista, e é verdade. O GOP (Grand old Party – ou Partido Republicano) precisa de artistas.”

(Wall Street Journal, pág. A13 Saturday/Sunday, April 14 - 15, 2018).