Parem de olhar o relatório Focus e comecem a olhar para a quantidade de mulheres grávidas! Apesar de parecer, nós não estamos loucos. Pelo menos até onde sabemos rsrsrs. A maluquice não é minha, infelizmente. Ela é dos pesquisadores da Universidade de Notre Dame nos EUA, que publicaram uma pesquisa onde relacionam recessões econômicas com a taxa de gravidez.

Recentemente foi publicado um artigo pelo National Bureau of Economic Research (NBER) que mostra que o número de mulheres grávidas tem forte correção com crises econômicas. Mas não vão se animando não. É importante lembrar que o fato de aparecerem mais mulheres grávidas, não significa que uma maldição irá jogar algum país, estado ou cidade em recessão.

Lembremos que não necessariamente correlação significa causalidade. Em estatística e análise de dados este conceito já é até meio batido, mas sempre é bom alertar.

Um dos principais problemas com modelos estatísticos ou preditivos é que nem sempre uma relação entre números significa dizer que haja relação de causa entre eles. Em estatística é comum encontrar fortes correlações numéricas entre dois ou mais dados, sem que haja qualquer relação causal razoável.

O que explica isso? Nada além de pura coincidência numérica, na minha opinião, é claro!

Mas o post de hoje não é sobre correlação nem sobre causalidade, mas sim sobre a pesquisa que apesar de parecer meio maluca, tem achados muito interessantes e justificativas muito plausíveis para justificar a correlação entre gravidez e recessões econômicas.

Segundo o artigo, embora pesquisas anteriores tenham evidenciado relação entre taxas de natalidade e ciclos econômicos, o estudo do NBER, segundo consta no próprio site tem o mérito de ser:

“o primeiro a mostrar que as quedas de fertilidade são importantes como indicador de recessões econômicas.”

BUCKLES, Kasey; HUNGERMAN, Daniel; LUGAUER, Steven. Is Fertility a Leading Economic Indicator?. National Bureau of Economic Research, 2018.

É interessante que o estudo, realizado com uma base de dados de nascimentos de mais de 109 nascimentos nos EUA entre os anos de 1989 e 2016, mostra como as taxas de fertilidade mudaram nos três últimos ciclos econômicos. O estudo considerou como marcos, os ciclos econômicos do início da década de 1990, no início dos anos 2000 e no final dos anos 2000.

Segundo consta no paper e como pode ser visto no gráfico abaixo, períodos de recessão, medidos pela queda no PIB (GDP em inglês) são acompanhados por quedas em proporções muito semelhantes na taxa de natalidade (conceptions).

Segundo um dos autores que participaram do estudo, há uma correlação justificável que remete ao comportamento das famílias e que explica a relação entre recessão econômica e a taxa de natalidade. Nas palavras do pesquisador Kasey Buckles:

“Uma maneira de pensar sobre isso [correlação entre a taxa de fecundidade e recessão econômica] é que a decisão de ter uma criança frequentemente reflete o nível de otimismo sobre o futuro “

BUCKLES, Kasey. 2018.

Dessa forma fica simples entender que a correlação entre os fatos vai além da mera cumplicidade numérica das séries temporais do PIB e da taxa de natalidade. No entanto há ainda alguns questionamentos importantes, que me incomodaram aqui.

– Como que a decisão de engravidar pode estar ligada com as recessões econômicas se há um delay de nove meses entre um fato e outro? Será que as famílias sentem de forma tão antecipada assim as mudanças no ambiente econômico? Sobre este ponto os autores argumentam que:

“Um desafio óbvio é que as concepções são difíceis de medir em tempo real, mesmo em comparação com outros indicadores, como a confiança do consumidor ou a compra de bens duráveis. Usando a medida que construímos aqui, as mudanças nas concepções não seriam observáveis por pelo menos nove meses depois que elas ocorreram, e ainda mais, na realidade, dadas as defasagens na disponibilidade dos dados da certidão de nascimento.” 

BUCKLES, Kasey. 2018.

Outro questionamento interessante que me ocorreu foi:

– Como o ambiente econômico afeta a decisão de ter ou não filhos? Pode ser que o país esteja em recessão, mas que hajam famílias com bom nível de vida planejando filhos independente do que acontece com a economia.

Neste caso o autor traz no estudo um dado interessante sobre o desemprego onde mostra que há também relação entre desemprego e a taxa de natalidade, facilmente verificado no gráfico abaixo.

Se a taxa de natalidade é um bom preditor de recessões, parece ser ainda cedo para dizer. Os autores ressaltam ainda que o estudo é válido para as últimas três recessões, perdendo parte de sua validade para recessões mais distantes no tempo.

Questões comportamentais devem também ser levadas em conta e neste sentido, de forma muito humilde e com toda a vênia possível, determinados comportamentos moldados por um contexto cultural diferente também precisam ser considerados.

A escassez de espaço em grandes centros, a opção, muitas vezes forçada por residências menores, os desafios das famílias com a independências da mulheres que mais do que nunca têm se dedicado mais às suas próprias carreiras retardando a maternidade, a maior liberdade sexual refletida pela liberação de casamentos gays e maior tolerância aos relacionamentos homossexuais, dentre muitas outras mudanças radicais na cultura e na organização familiar certamente são ameaças à continuidade do indicador de natalidade para previsão ou mesmo correlação com crises econômicas.

Os autores chegam a reconhecer tais limitações, o que do ponto de vista da ciência é importante, pois mostra visão crítica suficiente para que modelo e a pesquisa siga com incrementos sensíveis em sua análise e abrangência de dados e variáveis a considerar.

Ademais, não sei vocês, mas eu aqui, achei muito bacana o estudo e a forma como os autores investigaram o assunto e propuseram a correlação entre duas variáveis que iludem facilmente pela facilidade com que se apresentam logicamente. No entanto mérito reconhecido, pela compilação e justificada análise são mais que merecidos aos pesquisadores.

Mesmo que com possível aplicabilidade limitada, é certo que o estudo abre as portas para que a ciência econômica permaneça em evolução. Evolução esta, que vai não apenas na direção acadêmica, mas sim na aplicabilidade dos resultados de forma prática no dia a dia das pessoas.

Que venham muitos outros estudos como este!

Até a próxima, mentes brilhantes!