Vou começar levantando os dois pontos mais críticos em relação aos títulos de capitalização.
1º – Os gerentes de banco só vendem capitalização porque são beneficiados com a venda de títulos.

Sim, os maiores players do mercado de capitalização estão associados à grandes redes bancárias. E sim, os gerentes são comissionados pela venda desse produto. Mas eles também são comissionados por todos os outros, poupança, CDI, empréstimo…

Os valores das comissões variam de acordo com a estratégia do banco que, na maioria das vezes, acompanha o movimento da economia. Em momentos de estabilidade, produtos de seguridade tendem a ganhar relevância e, consequentemente, as comissões são mais altas. Mas isso não significa que ao vender a capitalização o gerente será mais beneficiado do que sugerindo outro produto.

2º – Título de capitalização não é um bom investimento.

Esse é um argumento muito comum entre os economistas, mas eu vou ter que discordar. Investimento é toda aplicação de capital em algum ativo, tangível ou não, para obter determinado retorno no futuro.

O título de capitalização um produto de seguridade, assim como a previdência, regulado pela SUSEP (Superintendência de Seguros Privados). Se o seu propósito não é gerar rentabilidade, então não é investimento. Nem bom nem ruim, simplesmente não é.

Fica então uma lacuna, se os títulos de capitalização não são investimento e não tem o propósito de gerar rendimento, para o que será que eles servem?

O objetivo principal da capitalização desde sua criação em 1850 é garantir a constituição de reserva financeira. Mas você deve estar pensando que existem outras maneiras mais eficientes de se fazer isso. Deve ainda estar concluindo que o problema é que no Brasil as iniciativas de educação financeira são muito precárias e, por isso, muitas pessoas desconhecem suas opções.

E você está certo!

Mesmo com a elaboração em 2010 da ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira) estamos muito longe de conhecer os instrumentos que nos levam a ter uma vida financeiramente saudável.

Pensando por esse prisma, imagine que vivemos em um mundo imaginário em que o Brasil possui uma cultura de educação financeira madura. Nesse cenário, onde todos conhecem profundamente sobre investimentos teríamos altos índices de adesão às ações, títulos do tesouro, fundos dos mais diversos tipos…

O problema é que para investir continuaríamos precisando escolher não consumir. Seria necessário mais do que um cenário imaginário de educação financeira, precisaríamos sempre tomar decisões plenamente consistentes. Ou seja, teríamos que ser como o homo economicus!

Cientistas comportamentais já avaliaram diversos fatores não racionais que influenciam as decisões, dentre eles o autocontrole. Geralmente ele é sinônimo de força de vontade, capacidade de enfrentar situações difíceis, ter um poder interior e conseguir resistir a tentações. O exemplo mais comum desse comportamento vem da mitologia grega.

“As Sereias tocavam e cantavam uma música maravilhosa que enfeitiçava todos quantos passavam junto da ilha e a ouviam. Fascinados, os navios aproximavam-se demasiado das costas rochosas, naufragavam e os marinheiros eram prontamente devorados pelas Sereias. Ulisses, que ia passar no local, tomou as suas providências, pois queria ouvir o Canto das Sereias sem, no entanto, correr perigo ou pôr em risco os companheiros e os barcos. Para isso, mandou aos marinheiros e remadores que tapassem os ouvidos com cera e que o amarrassem a ele, muito bem preso, ao mastro da embarcação. Em seguida avisou-os de que não podiam libertá-lo em circunstância alguma, mesmo que ele o ordenasse ou implorasse insistentemente. Assim conseguiu ouvir a beleza do canto e, simultaneamente, evitar o perigo mortal que todos corriam.”

Acontece que não somos heróis gregos e podemos falhar ao fazer escolhas que envolvam ganhos futuros. O já famoso teste do marshmallow avalia a capacidade de tomar decisões que envolvem ganhos futuros.

Isso acontece (de forma mais latente com as crianças) porque o desconto hiperbólico dos ganhos futuros faz com que os benefícios presentes sejam percebidos como tendo maior valor. Na prática, fazemos como as crianças e tendemos a escolher a compra um produto desejado agora a economizar para realização dos planos financeiros futuros. É aí que os atributos mais questionáveis dos títulos de capitalização ganham valor.

Há 4 modalidades de títulos de capitalização: popular, incentivo, compra programada e tradicional. Com 85% de participação no mercado de capitalização (segundo relatório “A capitalização na agenda econômica e social brasileira), a modalidade tradicional é a mais conhecida e é geralmente a ela que se voltam as críticas. Cada produto possui características próprias, mas, em geral, os títulos tradicionais funcionam da seguinte maneira:

Não pareceu tão bom, não é? Mas vamos aos pontos.

  1. A carência, especialmente em títulos de capitalização de pagamento mensal, cria um mecanismo de autoimposição que facilita a criação do hábito de poupar.
  2. Ao resgatar antecipadamente, parte do valor pago é descontado fazendo com que a aversão a perda atue no sentido de equilibrar o desconto do ganho futuro.
  3. O resgate final é percebido como recompensa e ratifica o comportamento criando um hábito.
  4. Por fim, os sorteios servem como estímulo à conquista da disciplina para guardar dinheiro. A chance de premiação funciona como um nudge, mas não se caracteriza como tal em função de ser um incentivo financeiro significativo.

Se você é um indivíduo com alto nível de autocontrole, esse não é um produto que você deva considerar. Entretanto, uma pesquisa realizada pelo SPC em 2013 aponta que apenas 12% dos indivíduos declaravam que fazer compras era seu ponto fraco, mas 59% confessaram que já haviam ficado no vermelho por causa de compras e tipos de lazer que não precisava ter realizado.

Esse é um indício de há muitas pessoas que, como eu, têm baixo autocontrole, apresentando dificuldade de resistir às pequenas compras não planejadas. Lamentando depois não conseguir investir ou trocar de carro, por exemplo. Para elas, vale a pena considerar a compra desse produto.

Apesar das duras críticas, o título de capitalização é muito popular no Brasil e pode ser melhor explorado tanto pelas instituições que o vendem quanto na elaboração de políticas públicas voltadas à educação financeira. É preciso desenvolver uma nova visão que extrapole a abordagem atual de educação como sinônimo de instrução, englobando o desenvolvimento de novas habilidades.

Nesse contexto mais amplo a capitalização, ou pelo menos seu conceito, tem grande utilidade.