Quem não gosta de juros baixos?

A pergunta acima pode te induzir a responder que todos gostam de juros baixos, mas neste post vamos rever esta ideia. Isto porque muitas vezes algumas informações são divulgas e de maneira voluntária ou não, acabam enviesando nossa análise a respeito de determinados temas.

A taxa de juros é um desses casos.

É relativamente consenso que quanto menor a taxa de juros, menos juros são pagos e mais barato se torna o custo do dinheiro. Esta ideia de custo do dinheiro é relativamente simples, mas é bem válida em nosso dia a dia. Se não temos dinheiro e precisamos tomar emprestado, os juros refletem quanto o dinheiro nos custou.

É então possível dizer que os juros são uma espécie de preço do dinheiro. Por isso quando falamos em juros baixos, temos que tomar cuidado. Porque mesmo com juros em queda e mesmo podendo chamar juros de preço do dinheiro, isso não significa que não estejamos sendo punidos financeiramente.

O que acontece na verdade é que continuamos a pagar juros, só que num patamar menor. Mas apesar da queda, pagar juros continua a ser um gasto pelo dinheiro e isso deve ser feito com muita moderação e apenas em casos muito bem planejados.

Perceberam que os juros baixos pode ser uma armadilha, tanto para nossas finanças pessoais como para as contas do governo?

Se os juros estão mais baixos, significa dizer que os juros pagos nos investimentos (poupança e aplicações) também estão menores. Exceção a esta regra pode ser a Bolsa de Valores, mas este é assunto para outro post.

Como estamos sempre tentando equilibrar nossos desejos atuais e imediatos, com nossas necessidades de longo prazo, como por exemplo a aposentadoria, é provável que os juros em queda estimulem a gastança ancorada no crédito “barato” e fácil em prejuízo da poupança para a velhice.

Em períodos onde temos queda nas taxas de juros é muito provável que o mercado esteja com um excesso de dinheiro. Este excesso faz com que haja uma disputa pelo crédito. Muitas instituições oferecendo dinheiro e disputando o crédito, faz com que os juros caiam pela simples competição (oferta e demanda). Claro que há ainda a âncora dos títulos públicos que resumindo de maneira grosseira, porém razoável, podemos verificar pela SELIC, também em queda.

Eu comento sobre a Selic como instrumento de economia comportamental e como a taxa pode ancorar o mercado num outro post, que você pode ler clicando aqui.

Selic em queda, crédito farto e mais barato, é sem dúvidas um grande estímulo ao consumo.

Em termos de gastos do Governo essa âncora de juros baixos, no entanto pode não ser uma notícia das melhores, pois facilita o fechamento das contas no curto prazo, porém compromete substancialmente o médio e longo prazos.

As pessoas comuns, chamadas de famílias em economia, em geral podem sentir pouco o estímulo na queda dos juros e isso se dá por alguns motivos:

– Os juros caíram, mas ainda são muito altos para empréstimos a pessoas físicas;

– A renda média das pessoas não permite que nenhuma parte seja comprometida com empréstimos, o orçamento já é justo demais;

– A renda não sobe a ponto de gerar um grande excedente que possa ser economizado, então a grande maioria dos brasileiros não tem o tradeoff (escolha) entre gastar e poupar;

– As famílias têm crédito restrito, uma vez que em regra o endividamento está atrelado à sua capacidade de pagamento (renda).

Já para o Governo Brasileiro as coisas são bem diferentes. Vou explicar, mas antes vou comentar um levantamento realizado pel jornal Financial Times para que fique mais clara a explicação do caso brasileiro.

Um levantamento realizado pelo jornal Financial Times, encontrou uma relação danosa para as contas públicas, comparando-se os juros com o tamanho do déficit público de países componentes da OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development).

Entenda o déficit público rapidamente:

Déficit público é quanto de dinheiro faltou ao Governo para fechar suas contas no zero a zero, ou seja: quando de dinheiro que faltou no orçamento do Governo.

Matéria publicada hoje 23 de fevereiro no Financial Times me fez para para refletir sobre os juros e as contas públicas. Reproduzo abaixo.

O levantamento para os países da OECD mostra que para os países pertencentes à Organização, a dívida cresceu de forma exponencial:

“O estoque total da dívida soberana dos países da OCDE aumentou de US $ 25 milhões em 2008 para mais de US $ 45 milhões neste ano.” (Financial Times, edição de 23 de fevereiro de 2018).

Financial Times, 23 de fevereiro de 2018

O percentual médio de endividamento em relação ao PIB para os países da OECD está em torno de 73%. Este volume de endividamento foi estimulado pela enxurrada de dinheiro injetada nos mercados quando da ocorrência da crise em 2008. De lá para cá as taxas de juros vêm apresentando quedas recorrentes e estimulando o endividamento, uma vez que com taxas menores, fica mais barato aos governos se financiarem.

Mas tal como acontece com as famílias, chega um dia em que alguém tem que pagar conta.

Pegar dinheiro emprestado é ótimo, até o momento em que você se depara com a necessidade de pagamento da primeira parcela do financiamento. É neste exato momento que você percebe, que durante todos os demais meses enquanto o financiamento durar, sua renda disponível será comprometida, pois você terá que usar parte dela para pagar o empréstimo.

E parece que o momento de pagar grande parte daquele que vinha sendo financiado às custas dos juros baixos, causados pela injeção de dinheiro na economia pós crise de 2008, chegou.

Novamente recorrendo ao levantamento realizado pelo Financial Times, os países da OECD têm nos próximos anos o vencimento de cerca de 40% da dívida contratada de 2008 em diante.

Na prática o que vai acontecer com as contas dos governos nos países da OECD?

Na prática, para os países da OECD, o orçamento vai ficar apertado ainda mais, porque não obstante as despesas correntes terem crescido desde 2008, eles agora terão que destinar uma parte considerável do orçamento para pagar o endividamento. Isso irá forçar os Governos a:

– Aumentar os juros para se financiar, pois estarão com risco de crédito maior devido ao grande endividamento e comprometimento das contas com pagamento da farra de 2008;

– Aumentar o gasto a longo prazo. Juros maiores agora, refletirão de forma ainda mais severa no futuro;

– Lidar com riscos de inflação maiores na economia. Isto porque com juros em alta, há mais propensão a poupar do que em gastar ou investir.

Você deve estar pensando. Mas porque os juros caíram se em 2008 os governos estavam também endividados e ainda por cima foram impactados negativamente pela crise? A chave para entender essa questão que não foi criada riqueza, mas sim impresso dinheiro. Os juros baixos foram “financiados” pela impressão deliberada de dinheiro, aumentando o dinheiro, todos tiveram como pegar emprestado para pagar a conta da crise.

E para o Brasil? Vamos ter algum impacto?

No Brasil, temos os juros em queda e a inflação está controlada. No entanto todos os Estados e o Governo Federal estão com déficits crescentes em seus balanços. Resumindo, os governos irão fechar os meses no vermelho.

É comum que governos fechem no vermelho, no entanto, da mesma forma que as famílias, fechar no vermelho acontece. O que estresse para os governos é não conseguir cobrir o saldo no vermelho.

Vimos esta semana que a Reforma da Previdência já era! Entrou para o rol praticamente infinito de promessas descumpridas pelos políticos brasileiros. Sem a reforma as contas do governo vão ficar ainda mais no vermelho.

Ah ok, mas então o Brasil está igual a todo o resto do mundo, certo?

Mais ou menos! Quando o resto do mundo está muito no vermelho e precisa aumentar os juros para se financiar, eles competem com o governo brasileiro no mercado de crédito.

É como se você estivesse numa feira livre. O resto do mundo começou vendendo o melhor pepino no início da feira e o Brasil chegou no final da feira querendo vender um pepino de qualidade inferior. Qual pepino você acha que vai vender mais?

Depois de já ter feito a feira provavelmente você não irá querer o pepino brasileiro, seja porque seu dinheiro acabou, seja porque você já comprou o pepino do resto do mundo.

Trocando a metáfora pelo economês, o resto do mundo deve iniciar a venda de títulos públicos com juros maiores antes do Brasil. Isto porque nosso mercado é ancorado pelo mercado externo. Quando o mercado externo aumenta, o Brasil tem o delay (retardo) na venda de seus títulos, até os investidores se reposicionarem.

Então até chegarmos à feira para vender nossos títulos com os juros do resto do mundo melhores porque são menos arriscados e com juros elevados – já veremos que muitos já terão pepinos em suas sacolas e teremos dificuldade em vender nosso pepino.

O que novamente irá sobrar para o Brasil?

Novamente seremos reféns do capital especulativo, que corre mais riscos e aceita até levar o pepino de fim de feira, porém serão eles que ditarão os preços e as regras. E nesse contexto, teremos que pagar juros altos demais e comprometer ainda mais as contas do governo brasileiro no futuro.

Sem reforma da previdência ou quaisquer outras que reduzam os gastos no orçamento do governo, não tem balanço que feche. Sem fazer o dever de casa, podemos chegar no futuro com as contas no vermelho, os juros muito altos e nosso crédito escasso. Ou seja, podemos não ter nem dinheiro nem crédito e isso nos leva ao calote.

Não acho que chegamos ao ponto do calote, mas os termos para escaparmos dele não serão nada fáceis de superar. Estaremos a negociar com um Tigre estando nossa cabeça na boca dele (citando Winston Churchill).

Já viram esse cenário em algum lugar?

A história se repete e, portanto, juros baixos agora até podem ser bons para economia, mas essa bonança só será plena se os próximos governos fizerem aquilo que deve ser feito. E a boa notícia é quem nem precisamos de muita sofisticação.

Basta adotarmos a regra simples e básica de gastar menos do que recebemos. Será que conseguimos?

A ver!