Quando um navio estava afundando na Grécia antiga era comum as pessoas se agarrarem as orações, talvez para Poseidon, e então após o incidente encontravam-se os vivos e os mortos. Aqueles que sobreviviam após o incidente fatalmente atribuíam o feito as suas orações. Mas a dúvida que paira é:

“E aqueles que morreram afogados, não rezaram?”

Essa dúvida foi implantada por Francis Bacon.

Os mortos não voltavam para atestar a ineficácia de sua oração. Estes eram simplesmente apagados, todos que sobreviviam tinham altos índices de eficiência em sua fé. Assim fica fácil atribuir como causa da sobrevivência o rezar.

The title page from James Spedding's c. 1900 second volume of The Works of Francis Bacon. (Fonte: http://printto.digital/learnersouza.html)
The title page from James Spedding’s c. 1900 second volume of The Works of Francis Bacon. (Fonte: http://printto.digital/learnersouza.html)
Eu chamo de a “Regra do FDP” a visão de não conseguirmos enxergar o todo em um incidente que vários fracassam e o sucesso é atribuído a algo errado. Um ponto comum de atribuição ao sucesso é o nível de esforço de alguém – uma metáfora para o nível de oração dos gregos – aqui argumentarei que não é o esforço que dá a palavra final.

“Imaginei o nome desta regra por pensarmos em apenas focado e em uma pessoa. Um simples FDP que deu certo. E ignoramos todos os demais.”

Pense em um músico de sucesso. Ele deu certo e é muitas vezes talentoso absurdamente, agora pense em quantos fracassaram ou quantos você conhece que são ótimos músicos se dedicam muito, mas não fazem nem sombra ao sucesso estrondoso de outros. Quantos gostariam de viver de música, mas precisam de outros empregos para complementar a renda de músico. Alguns estudos indicam que inclusive o sucesso pode ser induzido, não sendo fruto do esforço do sujeito¹.

Se você atribui a sorte o sucesso musical estamos parcialmente de acordo.

Agora imagine um jovem garoto que tentou ser jogador de futebol e treinava diariamente, e de repente temos notícia ele se tornou jogador de futebol amador em sua cidade. Você realmente acha que foi falta de esforço?

Novamente se você atribui a sorte e aos contatos estamos bastante de acordo.

Agora sem casos extremos. Imagine alguém de sucesso, um empreendedor que investiu tempo e dinheiro e se destacou em na sua cidade. O que você atribui o seu sucesso? Competência, correto? Esforço e trabalho noite e dia um espirito empreendedor sem igual, faro para negócio.

Bom se você atribui isso ao sucesso estamos em desacordo.

Não vou negar que o esforço seja um ponto forte do sucesso de uma pessoa, mas o problema é atribuir a ele a causa do sucesso e derrota na vida. As coisas não são tão simplistas assim. Alguém que deu certo teve o fator sorte também ao seu lado², mas como os gregos nós só observamos aqueles que voltaram do naufrágio e dificilmente questionamos “E os que deram errado? ”.

Outro ponto é que enxergamos o final da situação, alguém teve sucesso então simplificamos “Esse cara é competente” é mais rápido fácil e intuitivo, pouco esforço é exigido.

O problema disso é generalizar, o viés de disponibilidade auxilia muito enxergar este ponto. Tentemos a lembrar das coisas com a frequência que elas vêm à mente e não com a frequência que acontecem. Se você puxar na sua memória agora 3 exemplos de sucesso e 3 de derrota, qual aparecerá mais fácil? Se você for como eu, acredito que casos de sucesso. Assim, tento expor o lado oposto para desenviesar essa visão.

Steven Levitt e Stephan Dubner comentam em seu livro Freakonomics & Superfreakonomics, como é comum ver pessoas de certa idade já, sendo garçom perto de Hollywood com o sonho de ser ator. Esses passaram a vida tentando e ainda não se tocaram que poucos vão conseguir.

Quadro: Beside a Waiter de Josh Moulton Fine Art © 2010 (Fonte: https://www.joshmoultonfineart.com/portfolio-item/beside-a-waiter/)

Daniel Kahneman cita sem seu livro Rápido e Devagar sobre os mártires do otimismo, que basicamente fazem a economia girar, fracassando. Investem dinheiro, quebram, se erguem e quebram de novo.

Mas então minha visão é pessimista? Não. O próprio Kahneman nos explica pela teoria do prospecto como podemos ser otimistas nos campos de perda e tomamos risco para isso. Se não fossem essas pessoas realmente o mundo não iria girar, mas muitos irão fracassar e terão insucesso. E isso não estou levando em conta, fatores neurológicos, biológicos, psicológicos, sociais entre outras variáveis.

Como Harari diz, alguns seres humanos são melhores que os outros e não há nada errado em assumir isso. Infelizmente uns terão sucesso e outros fracassarão.

E por fim, só espero que você não atribua a 1 único FDP de sucesso a resposta para o fracasso de outros.

Referências
¹ Livro: O andar do bêbado.

² Livro: Rápido e devagar.

³ Livro: Homo Deus