Eureka é um espaço para deixar a imaginação fluir em ideias sem restrições. Hoje vou viajar aqui avaliando a ideia: Quebrando a estratégia de crescimento do Uber.

Desde que o Uber chegou ao Brasil muita coisa aconteceu. Tivemos passeatas, protestos, violência contra motoristas do aplicativo e um monte de imbróglio político. Todo barulho causado, no entanto, chega a ser enfadonho. Nos dias atuais tudo do que se faz para protestar é mimimi, quebra quebra, passeatas e posts enfurecidos nas redes sociais.

Eu admito que estou meio cansado desse tipo de estratégia como forma de ação.

Foi pensando no caso do Uber e do mimimi dos taxistas, sindicatos e movimentos que apoiaram a revolta contra o aplicativo que uma ideia me veio a cabeça. Peço desculpas antecipadamente, pois a ideia surgiu no banheiro, então pode ser que eu fale uma bobagem aqui rsrsrs. Sempre gostei muito de estudar estratégia. Não confundam com Planejamento Estratégico, pois neste último tenho algumas ressalvas a fazer. Mas estratégia tem relação, porém não se resume a um planejamento estratégico.

O mundo atual é cheio de atitudes disruptivas. A tecnologia e a facilidade com que ela pode ser apropriada por qualquer pessoa suficientemente interessada e esforçada fez com que negócios inovadores surgissem com uma frequência insana nos últimos anos. Sem pedir licença e com objetivo de resolver problemas que nem o Estado, nem a população nem muito menos as empresas tradicionais conseguiriam resolver, empreendedores tem mudado o ambiente com suas ideias de maneira que esse movimento é algo sem volta.

O ambiente social, ao menos no Brasil, parece não ter percebido essa mudança, ou quem sabem não querem ver que ela esteja acontecendo. Pode ser ainda que grande parte da sociedade não saiba como lidar com o novo ambiente sócio, econômico e cultural.

No caso do mimimi entre taxistas e o Uber acho que se os taxistas tivessem um pensamento mais abrangente e adequado aos tempos atuais, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. É claro que a entrada do Uber é uma ameaça ao mercado dos taxistas e, portanto, é legítimo que eles queiram proteger seus próprios interesses.

O que incomoda é a forma! Os taxistas a meu ver partiram para o confronto com a mesma estratégia de sempre: espernear! Espernear as vezes funciona, ainda mais se você detém apoio da maioria. No caso dos taxistas, infelizmente a maioria não chegou a espernear juntamente com eles. E o que é ainda pior, a grande maioria, reféns de um serviço inadequado para atender às necessidades atuais, partiu em defesa do Uber indo contra e fazendo duras críticas ao serviço prestado pelos taxistas.

Não tenho pretensão de dar solução ao debate. Na posição cômoda e distante do problema e até mesmo da realidade vivenciada por ambos os lados do conflito (taxistas e motoristas de aplicativo) me atrevo a sugerir uma estratégia tão disruptiva quanto a inovação trazida pelo Uber.

A proposta em si é simples:

E se os taxistas tivessem convertido seus taxis para o aplicativo do Uber?

Não sei se é possível, porém me soa como uma estratégia muito adequada e vou explicar o motivo.

Os taxistas já estavam estabelecidos no mercado, com suas receitas “garantidas” e havia um certo equilíbrio regulatório que determina onde cada taxista estaria liberado a estacionar e estabelecer seu ponto de atendimento. Há uma certa divisão territorial para a atuação de cada taxista. E o mais importante: os taxistas detinham praticamente o monopólio no modal de transporte de passageiros em carros convencionais.

Sempre pensei que o sonho de todo empresário é ser monopolista. Neste caso os taxistas estavam muito próximos desse sonho. É pena que quando ameaçados pela inovação e concorrência, eles não tenham sabido agir da forma adequada.

Imaginem se todos os taxistas tivessem imediatamente convertido seus taxis para carros Uber?

Do ponto de vista da concorrência, os taxistas estariam criando uma excelente barreira de entrada. Cadastrando seus taxis no aplicativo do Uber, eles estariam garantindo a demanda e reduzindo drasticamente a propensão de novos entrantes a virem para seu mercado.

Os taxistas estariam ainda em posição privilegiada de negociação junto ao Uber. Já organizados em associações ou sindicatos, estariam dotados de poder de mercado para pressionar o Uber a praticar a mesma tarifa evitando perder margem financeira.

Isso sem falar que haveria ainda uma grande pressão política e talvez quem sabe os taxistas conseguissem um marco regulatório mais justo para a profissão, com menos pagamento de impostos e condições mais facilitadas para se manterem no mercado?

Toda estratégia tem riscos e não há como deixar falar neles aqui.

O Uber poderia muito bem não negociar e assim os taxistas estariam na prática dando um tiro no próprio pé. Mas da mesma forma que Uber surgiu outros aplicativos apareceram e continuam a aparecer, sem contar que essa bagunça, se criada, daria pelo menos aos taxistas de irem se posicionando para atender eles próprios às novas necessidades dos consumidores.

Diga-se de passagem, esse movimento aconteceu por parte dos taxistas. Mesmo atrasados, muitos criaram aplicativos, mudaram a forma de trabalho e passaram a implementar mudanças como por exemplo aceitar cartões de crédito.

Não tenho como simular o que aconteceria se a estratégia fosse implementada. No entanto uma coisa é certa, o maior medo dos taxistas teria grandes chances de não se concretizar: o aumento da competição pelo mercado.

Da forma como o Uber chegou, é de esperar que a frota de carros tenha dobrado no mercado dos taxistas. Isso certamente causou perdas maiores do que aquelas concretizadas pelas baixas tarifas praticadas pelo Uber. Ao focar na tarifa baixa os taxistas negligenciaram que pior que competir por preço é competir num contexto onde a oferta é muito maior do que a demanda.

Sob o guarda chuva da regulamentação taxistas pagam caro por licenças escassas e quando o novo chegou, todos estavam sofrendo e choramingando que os preços do Uber eram irracionalmente baixos que a conta não fechava e etc. Neste ponto os taxistas perderam o apoio popular. Afinal para o consumidor, preço menor é sem dúvidas uma ótima notícia.

Perdendo apoio popular, mesmo estando no Brasil, os taxistas facilitaram as coisas para o Uber e seus motoristas. É o povo quem elege políticos (pelo menos em tese). Vendo a mobilização dos taxistas e a opinião pública satisfeita com o Uber, que você imagina que aconteceria?

É claro que a classe política daria um jeito de colocar panos quentes na situação, como de fato ocorreu. O recado é simples. Precisamos estar atentos aos novos movimentos de mercado. Neste ponto é importante que estejamos verdadeiramente atentos às mudanças.

Combater “inimigos” novos com estratégias antigas, é em última análise reconhecer que não se conhece o inimigo e segundo um dos maiores pensadores da estratégia que já viveu Sun Tzu:

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

(Sun Tzu – A Arte Da Guerra).