Se eu oferecesse para o João 200 reais e dissesse que ele poderia dividir o dinheiro da maneira que quisesse com você. João teria liberdade de dividir 100 para cada ou qualquer outra maneira que interessasse. E então, João decidiu dividir 190 para ele e 10 para você.

Você agora tem o poder de recusar ou não, sabe desde o início que eram 200 reais, e que desse valor foi oferecido 10 para você. Se você se recusar a receber os 10, João não recebe nada.

Se você seguir o comportamento da maioria das pessoas que responderam essa pergunta, você certamente negaria. No entanto se você fosse um Homo Economicus, um ser racional, iria aceitar.

E aí estamos novamente com o nosso ser humano quebrado….

Para a teoria econômica clássica, você deveria aceitar a brilhante proposta de João, afinal 10 reais é muito melhor do que nada. Mas você observou a perspicácia de João e não admitiu tamanho disparate de benefícios.

O chamado jogo do ultimato, que foi descrito nos parágrafos de cima, nos mostra o quanto somos humanos e quanto a percepção de justiça social pode influenciar nossas tomadas de decisão. Soa óbvio você aceitar 10 reais a nada. Mas quando os 10 reais são oriundos de uma divisão de 200 reais, o seu sangue até ferve. Estima-se que para fazer uma proposta que outro lado aceite, deveria ser no mínimo 20% do valor total¹ (Bazerman, 2014), no caso em questão, 40 reais.

Agora vamos pensar em nossa vida em grupo. Uma divisão que seja percebida como injusta nos faz pensar “Por que ajudar o grupo?”. De comidas a verbas públicas esse pensamento pode ser estendido para várias situações.

Aí chegamos no primeiro ponto: Uma percepção de injustiça nos faz ser menos colaborativos. Uma sociedade sem colaboração costuma ser individualizada e que fatalmente não progride junto. Sociedades desenvolvidas possuem melhor divisão de recursos ou pelo menos a percepção de que são melhor utilizados. Em organizações e empresas o padrão de comportamento é o mesmo. Vide o campo da Justiça Organizacional na área de psicologia organizacional.

“Você já se questionou se a distribuição salarial da sua empresa é vista como justa?”

E aqui acredito que entra a cereja do bolo no jogo do ultimato: Eu prefiro me punir para prejudicar uma pessoa que foi desleal do que colaborar com algo injusto. Deixar de receber os 10 reais não traria benefício algum para você, mas prejudicaria diretamente aquele que fez a partição injusta, no exemplo citado: João. O benefício aparece para você em um segundo momento: punir João.

Aparentemente queremos ensinar uma lição a quem dividiu de forma tão desproporcional o dinheiro. E punir o injusto no grupo parece ter sido um bom meio agregador ao longo da nossa evolução, pelos motivos citados acima.

Os mecanismos cerebrais que nos orientam a rejeitar os 10 reais ainda estão sendo estudados, alguns já mostraram algo interessante: Participantes com baixo grau de serotonina tendem a rejeitar ofertas injustas² (Crockett et al, 2008), participantes com alto grau de oxitocina tendem a ser mais generosos³ (Zak PJ et all 2007).

E você, onde encontra a aplicabilidade do jogo do ultimato no seu dia a dia?

Referências

1 – Processos Decisórios – Max Bazerman, 2014.

2- Serotonin modulates behavioral reactions to unfariness, Crockett, Molly J.; Luke Clark; Golnaz Taibnina; Mathew D. Lieberman; Trevor W. Robbins, 2008.

3- Oxytocin Increases Generosity in Humans, Zak PJ, Stanton AA, Ahmadi S, (2007).