Se sua meta para 2018 é começar uma atividade física, não tenha medo, mas esse post é para você. Não gosto de exercício físico e não tem crossfiteiro que me faça mudar de ideia. Ponto.

Ir à academia sempre foi um pesadelo. Achava aquele lugar o sétimo círculo do inferno de Dante Alighieri, exatamente no primeiro vale, o Vale do rio Flegetonte.

Lá estão as pessoas que cometeram violência contra o próximo, afundados até a cabeça em rio de sangue fervente, porque fazer alguém pagar para puxar peso e ter outra pessoa gritando que você consegue mais do que aquilo, é uma extrema violência contra o próximo. Tinha a sensação de estar afogando em um rio sem poder sair, somente dor e sofrimento. E essa explicação só foi possível porque eu matava as aulas de educação física (desculpe professora) para ir ler na biblioteca.

Bem… com esse sentimento, minha vida fitness nunca durava muito tempo. Mesmo assim, precisa fazer alguma coisa, por orientação de TODOS os médicos. Decidi tentar uma nova estratégia: uma ajuda da ciência comportamental.

Comecei identificando as barreiras. Listei as coisas que mais me incomodam na academia tais como instrutor chato que fica no pé insistindo que posso carregar mais peso, música chata e alta e ambiente quente. Procurei uma academia menos “da moda”, mais normal e com ar condicionado. Já a música alta foi difícil escapar, nenhuma que vi tinha a possibilidade de você conseguir ouvir o próprio pensamento.

No livro “O Poder do Hábito”, Charles Duhigg explica que o hábito funciona como um looping. O Rafael Jordão já falou sobre isso aqui no blog. Você decide voluntariamente um padrão, mas após repetir algumas vezes, ele se torna um hábito em que não é preciso pensar mais sobre isso, torna-se automático, como dirigir, ir tomar um cafezinho no escritório, lavar as mãos antes de comer. Tudo para que o cérebro poupe esforços.

Esse looping funciona assim: primeiro uma “deixa” ou um “gatilho” dá início ao ciclo. Se você quer mudar de hábito é muito importante identificar qual essa “deixa”, o que faz com o que começa uma ação determinada. Segundo vem a ação em si, pode ser tomar o cafezinho e, no meu caso, ir à academia. Terceiro: a recompensa. Esse é um ponto difícil em hábitos que têm como resultado benefícios no futuro distante (como poupar para aposentadoria) ou recompensas abstratas (manter a saúde).

Então eu precisava de uma “deixa”. Foi difícil achar um gatilho, então decidi ir junto com o marido, ele foi minha “deixa”. Ele criou o hábito antes de mim pois tem uma recompensa mais tangível e próxima da ação: quando vai à academia, diminuem as dores nas costas de ficar muito tempo sentado trabalhando/estudando. Se ele falta uma semana já volta a ter um pouco de desconforto. Essa resposta rápida fez ele se dedicar e ter frequência. Isso foi bom para mim, a minha “deixa” tem assiduidade. Foi incrível como ele passou de sedentário para uma pessoa ativa.

Agora precisava de uma recompensa e a escolhida foi passar para tomar um chope após a academia. Sim! A meta é criar o hábito de atividade física, não era emagrecer, perder peso ou gordura. Então, sempre que saiamos da academia, passava para uma recompensa – um e apenas um chope em choperia próxima. Agora você viu alguma vantagem nisso, não é? Conversava, relaxava e íamos embora.

O que Charles Duhigg também explica é que hábitos “Angulares” ou “Mestres” fazem com que mudamos outros hábitos menores. A mudança de um pequeno hábito faz mudar áreas diferentes da vida como trabalho, amizades, saúde, metas, sonhos como se desenvolvesse um novo padrão que pode se espalhar para diversas áreas. Diminuindo os chopes aos poucos e de forma natural. Às vezes saí tão cansada da academia que não valia o esforço. Então vinha a ideia “Vamos só para casa logo?”, “Vamos.” E ficávamos sem recompensa e mesmo assim, satisfeitos.

Essa experiência com resultado satisfatório fez rever outros hábitos, fez pensar que nem tudo precisa ser como é e deu mais motivação para novas experiências.

Um bom resumo sobre criar um hábito: encontre uma “deixa” simples e escolha uma recompensa clara. E para mudar: identifique o looping do hábito atual e crie uma ação alternativa. Se comprometa com ela por um tempo, verá que aos poucos nem pensará mais nela.

Hoje, quando fico cansada da academia e com vontade de faltar, combinamos, hoje tem recompensa. O esforço físico virou sinônimo de passeio. Hoje estou grávida e o chope já não é mais uma recompensa possível. Mas passamos em uma padaria, tomamos um suco, um sorvete, fazemos uma pausa e descanso antes de voltar para a casa. Assim, a experiência final do exercício é prazerosa. E para quem já leu sobre economia comportamental, sabe que o “eu que experimenta” e o “eu que lembra” são pessoas diferentes, e quem decide é sempre o “eu que lembra”. Sabe qual a lembrança que fiz da academia? A recompensa. Vale ler o artigo da Marcela Marcattos.

Há quem diga que isso tira o resultado da academia e eu concordo plenamente. Isso anula o resultado da academia daquele dia, mas contribui para a manter um hábito que pretendo que dure para toda a vida. Então peso: perco o resultado de um dia ou o resultado do hábito para sempre?

Referência: “O Poder do Hábito”, Charles Duhigg