O livro é surpreendente!

O sarcasmo misturado com o senso prático e crítico da realidade deixa a leitura agradável. Bernard Shaw parece se alinhar a pensadores econômicos da escola Utilitarista. Em determinado momento o autor cita:

“Uma pessoa tendo uma renda anual de 25 libras pode multiplicar o próprio conforto além de todo e qualquer cálculo dobrando de renda; provavelmente até 250 libras, a duplicação da renda atual significa duas vezes mais conforto. A partir dessa quantia o acréscimo de bem-estar cresce menos em proporção com o da renda até se chegar a um ponto em que a vítima é saciada e mesmo fartada por tudo o que o dinheiro pode obter.”

SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 34. Ediouro, 2004.

Essa passagem lembra e muito a teoria dos rendimentos marginais decrescentes, onde temos que quantidades adicionais de um determinado bem, no caso da citação acima o dinheiro, aumentam a utilidade desse bem, porém esse aumento cresce a taxas decrescentes. Em suma isso quer dizer que aumentar a renda continuamente tende a resultar em cada vez menos satisfação até um ponto em que quantidades adicionais de dinheiro não fazem mais diferença, ou seja, não tem mais utilidade.

Bernard Shaw expressa essa ideia de forma frequente no livro. O autor cita o quão sem graça é viajar no vagão mais caro de um trem e poder apenas se servir de sanduíches comuns. Ainda segundo o autor, nesse tipo de situação, ter mais dinheiro não tem serventia, pois o gasto está limitado ao sanduíche comum (única opção) que pode também ser comprado por alguém que não seja rico.

Em passagens muito diretas e com sarcasmo e ironias extremos, Shaw faz ainda menções sobre como ricos devem realizar doações. Chega a recomendar e desaprovar doações para hospitais e escolas explicando os efeitos deletérios destas doações por incentivar níveis irreais de bem-estar. O autor recorrentemente reforça que dinheiro conquistado se esforço não produz efeitos desastrosos sobre a vida das pessoas e também na sociedade.

Por fim deixo em destaque alguns trechos magistrais do autor:

{

Sobre liberdade de opinião

“Toda nossa teoria da liberdade de palavra e de opinião para todos os cidadãos repousa não na asserção de que todo mundo tem razão, mas na certeza de que todo o mundo está errado nalgum ponto em que um outro tem razão, de modo que há um perigo para a coletividade em não deixar que todos sejam ouvidos.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 86. Ediouro, 2004.)

{

Fazer o bem

“Daí a simples forma para o benfeitor da comunidade não dar nunca às pessoas algo que elas querem: dê-se-lhes algo que elas deveriam desejar e não desejam.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 98. Ediouro, 2004.)

{

Valor do dinheiro

“O dinheiro não tem valor para quem dele tem mais do que o suficiente; e a sabedoria com que é gasto e a única justificação para que o deixemos com ele.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 108. Ediouro, 2004.)

O livro que lançado pela editora Ediouro conta ainda com um adicional ao final onde são registradas algumas frases características do autor. Frases estas, presentes talvez em outras obras, ou apenas fragmentos soltos de declarações de Bernard Shaw.

Nesta parte quatro frases me chamaram muito a atenção e reproduzo abaixo:

{

Imoralidade

“Tudo que contraria as maneiras e os hábitos estabelecidos é imoral… Todo avanço em matéria de pensamento e comportamento é imoral por definição, até que não tenha convertido a maioria.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 117. Ediouro, 2004.)

{

Jogo de Xadrez

“É um expediente tolo [jogo de xadrez] para fazer com que as pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 119. Ediouro, 2004.)

{

Martírio

O Martírio é a única forma de ganhar fama sem ter competência.”

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 120. Ediouro, 2004.)

{

Religião

“Não vejo por que as pessoas que creem nos elétrons se consideraram menos crédulas do que as que creem nos anjos.

(SHAW, Bernard. Socialismo para milionários. Pág. 123. Ediouro, 2004.)

Aqueles que tem acompanhado minhas postagens nas últimas semanas devem estar pensando que desenvolvi alguma obsessão por autores do século XIX ou quem sabe até pelos pensadores econômicos da mesma época.

Acreditem ou não, os temas e as referências aos pensadores tidos como Utilitaristas, surgiram por mera coincidência. Apesar de tudo, foi bacana tratar primeiro da irracionalidade racional do mercado de artes e agora ler Socialismo para Milionários. O livro fez um excelente fechamento desta temática na minha opinião.

O que vou ler agora? Em breve conto aqui e também nas redes sociais do Geekonomics, fiquem ligados!

Até o próximo post.