Série comentada e aclamada em 2016, The People v. O. J. Simpson: American Crime Story, disponível na Netflix, conta o caso do ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, conhecido como O.J., acusado de ser o responsável pelo brutal assassinato de sua ex-mulher e de um amigo dela em 1994. Considerado o julgamento do século, com uma narrativa envolvente, atores de renome e muitos prêmios (22 indicações no Emmy e 5 premiações; no Globo de Ouro teve 5 indicações e duas vitórias) você só tem motivos para ver a série.

Mas o que é realmente interessante é o olhar das ciências do comportamento no caso e o quanto os vieses e heurísticas se mostraram presentes nas decisões dos investigadores, do júri e dos jornalistas que fizeram a cobertura do caso.

Já pensou que raiva, indignação, afeição e pena afetam o processo cognitivo na avaliação de fatos? Você já pensou em fazer uma análise sobre a racionalidade do seu julgamento quando o assunto é justiça? Bem, não precisa fazer isso agora. Mas você vai encontrar abaixo algumas interferências no processo de decisão do júri de O.J. Simpson que te faça pensar mais a respeito.

Glossário importante:

Vieses: Um viés cognitivo é um erro sistemático (não aleatório) de pensamento que ocorre quando o julgamento se desvia do que seria considerado desejável sob a perspectiva das normas aceitas ou do que seria correto com base na lógica formal.

Heurísticas: Heurísticas, comumente definidas como atalhos cognitivos ou regras práticas para simplificar decisões, representam um processo de substituir uma questão difícil por outra mais fácil. Heurísticas também podem levar a vieses cognitivos.

O júri e o viés confirmatório

O júri foi selecionado pela defesa e pela acusação considerando a crença prévia sobre o acusado – uma tendência em acreditar que era inocente ou culpado antes mesmo de ver qualquer evidência. Entendiam assim, que após escolhidos, o trabalho seria apenas trazer fatos, evidências ou apenas uma narrativa que confirmassem a crença existente.

Alguns já demonstravam que acreditavam na inocência de OJ: Como um jogador famoso, querido e carismático seria capaz de cometer assassinato? Outros já acreditavam na culpa: Ele tem histórico de violência doméstica, é sempre assim, termina em morte.

Essa crença prévia torna-se uma influência sutil (inconsciente) muito forte que precisa de apenas um “ajudinha” para se manisfestar.

Viés de avaliação de eventos conjuntivos

O júri, aparentemente, acreditou que a história de conspiração contra OJ em que a polícia discriminatória de Los Angeles teria incriminado-o – apesar de a história ser supercomplexa – teria mais chances de ser verdade do que as evidências levantadas pela polícia forense.

Chamamos de eventos conjuntivos quando em uma cadeia de acontecimentos, a probalidade de ocorrer eventos individuais é maior do que a ocorrência de todos os eventos juntos. É possível que tenha ocorrido erros nas investigações ou alguma incriminação? Sim, e a probalidade pode até ser alta. Mas que todos os eventos ocorram ao mesmo tempo para concluir na história apresentada – a probalidade é baixa.

Questão racial

Anos antes, a polícia de Los Angeles havia sido acusada de má conduta policial por praticar excesso de violência contra negros. A população já tinha criado uma percepção negativa da polícia e acreditava que ela não agia com justiça e imparcialidade quando o acusado era negro.

A heurísticas da representatividade se apresentou quando a questão de injustiça sofrida por negros foi fortemente levantada pela defesa e o depoimento de um polícial, que se demonstrou ser racista, ajudou a embalar a história. A probabilidade de uma pessoa pertencer a uma categoria – dos injustiçados – foi inferida pela representatividade do grupo. Foi muito fácil o júri acreditar que OJ por ser negro teria sofrido uma injustiça.

Apesar de todas as evidências, provas, exames de DNA e histórico de violência doméstico entre OJ e a ex esposa, o júri inocentou o réu. O caso se tornou um julgamento e discussão sobre a discriminação dos negros em Los Angeles. Mas e a questão de decidir com  justiça com base na veracidade dos fatos? Já pensou como seria sua avaliação se estivesse no júri quando um ídolo ou famoso fosse acusado de assassinato? Quanto de racionalidade você teria?

Fontes e referências

Guia de Economia Comportamental – disponível para download em http://www.economiacomportamental.org/guia/

ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional: Aprenda a Tomar Melhores Decisões. Editora Elsevier, 2008.

BAZERMAN, Max H.; MOORE, Don. Processo Decisório. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 8º Edição, 2014.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Editora Objetiva, 2012.