Muito se tem falado e profetizado sobre uma nova onda onde a internet das coisas (Internet of Things – IoT) será determinante para a mudança na forma de como nós humanos interagimos com o mundo e com nossos múltiplos dispositivos ou aparelhos eletrônicos de todo tipo.

Mas parece que esse termo já vem dando lugar a outro ainda mais disruptivo. Falo da Internet of Me. É complicado arriscar e nem de longe tenho intenção de profetizar algo, mas parece que o momento da internet das coisas já está passando, ou pelo menos já uma tendência que virou realidade, algo concreto já em fase de franca implantação.

Já vemos casas conectadas, carros conectados, geladeiras conectadas, cafeteiras conectadas, a IoT já é uma realidade. Vendo a realidade da evolução da IoT fico me perguntando onde estará a próxima fronteira da tecnologia?

Alguns podem apostar na inteligência artificial e em ferramentas preditivas que vão utilizar modelos matemáticos e algoritmos que podem interferir na forma como fazemos, consumimos e até mesmo determinamos nossas preferências. Corre solto o uso de tecnologias de análise de dados mescladas com áreas como neurociências, marketing, economia e psicologia. O tão famoso Watson da IBM, promete até mesmo identificar aquilo que nem mesmo sabemos que iremos gostar ou precisar.

Corremos grande risco de perder parte ou a totalidade de nossa autonomia decisória. Quem sabem seremos direcionados ou forçados a tomar decisões pré-determinadas por cálculos escondidos de nós mesmos e baseados na arrogante premissa de que nosso comportamento passado pode servir para predizer nosso comportamento futuro?

Quem decidirá o que gostamos ou que queremos ver na timeline?

Nós mesmos ou os cálculos realizados com base nas preferências que os computadores suspeitam que temos?

É verdade que existe grande similaridade de comportamentos e preferências passados com aqueles que teremos no futuro. Os economistas neoclássicos já trabalharam com estas premissas, mas parece que após mais de duzentos anos de teoria econômica, já podemos dizer com certa tranquilidade científica que a preferência dos agentes econômicos nem passa perto de ser estável. O Homo Economicus é uma utopia.

A preferência muda a todo momento. Muda de pessoa para pessoa, muda de grupos para grupos, muda de um mês para o outro, de um dia para o outro, enfim muda tudo o tempo todo no mundo! Acho que algum compositor já grafou essa frase em alguma de suas músicas, ou será que foi algum economista comportamental?

Não há verdade maior. Em se tratando de preferências, não é possível dizer que o agregado é uniforme, nem muito menos estável. A Economia Comportamental tem evidenciado isso em pesquisas que nos últimos anos revolucionaram o estudo da Economia e de outras áreas do conhecimento como a psicologia, o marketing, dentre muitas outras.

Você deve estar se perguntando a ligação que existe entre preferências individuais e coletivas com a nova fronteira da tecnologia que deve substituir a IoT como grande tendência? Eu explico.

A verdade é que já podemos falar em Internet of Me.

Pare um momento para pensar. Já é um batido a frase de que a internet é uma rede não de computadores, mas de pessoas. A internet tem se tornado cada vez mais um espaço onde as pessoas deixaram de ser expectadores e passaram a ser os próprios atores. Pessoas anônimas produzem seus conteúdos, arrebanham fãs e muitas vezes tem até mais audiência que muita mídia de grandes grupos de comunicação.

Essa realidade traz as pessoas para o centro do debate. Segundo a consultoria Accenture:

“As empresas terão de mudar seu pensamento e substituir as metas de vendas imediatas do passado por metas que clientes e funcionários têm para si próprios. Isso mudará o jogo: quanto mais objetivos uma empresa ajudar as pessoas a alcançar, maior será a confiança na parceria e o relacionamento se tornará mais forte a cada interação.”

Accenture

TECHNOLOGY VISION 2017 TECNOLOGIA PARA AS PESSOAS

É fácil notar a mudança no discurso. As pessoas juntamente com seus objetivos, desejos e metas pessoais, moldam as estratégias e objetivos das empresas e não o inverso. O termo usado é “People First” (pessoas primeiro). O desafio é reprogramar o Mind Set das empresas que deverão passar a priorizar as necessidades das pessoas sejam elas clientes, funcionários ou em última análise até mesmo seus próprios acionistas.

Mas essa transformação só será possível se pensarmos a tecnologia não mais como uma ferramenta, mas sim como uma parceira que auxiliará e trabalhará em conjunto com as pessoas. Neste contexto algumas ameaças podem se tornar latentes.

Já falamos aqui sobre viés do algoritmo. Temos ainda uma série de vieses que também podem ser identificados em algoritmos. Precisamos pensar em formas de neutralizar ou pelo menos relativizar toda a informação e conhecimento vindo dos algoritmos.

Afinal de contas, a despeito de todo aprendizado de máquina, de todo algoritmo e todos os dados que apontam comportamentos e tendências mais prováveis, estamos considerando e assumindo que decisões passadas são boas preditoras do futuro ou pelo menos do presente.

Essa premissa, deixam os algoritmos e as análises de dados expostas a uma espécie de heurística da disponibilidade digital. Sabemos, no entanto, que as preferências além de não serem estáveis, também não são racionais. Tentar racionalizar o comportamento humano ou as decisões humanas com base em algoritmos ou análises preditivas me parecer ser um equívoco.

Em se tratando de economia, penso que podemos estar prestes a cometer o mesmo equívoco dos clássicos: tentar racionalizar a ponto de acreditar que a matemática conseguirá explicar com alto grau de confiabilidade e sem erros o comportamento e as preferências humanas.

Não sei não mas parece que já cometemos esse erro antes. Só espero que tenhamos muitos outros Economistas Comportamentais para mostrar que as coisas não são tão simples quanto parecem. Afinal o poder de processamento matemático computacional é impressionante, no entanto não é tão impressionante quanto a capacidade humana de se reinventar e fazer diferente.