Leis da robótica? Que nada! Um dos maiores desafios da humanidade para o próximo século certamente será diferenciar humanos de robôs. Até que ponto implantes e outros tipos de interfaces ligadas a órgãos humanos podem garantir nossa autonomia psicológica e liberdade cognitiva?

O escritor Isaac Assimov definiu como leis da robótica:

  1. um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;
  2. os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
  3. um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Sim. Assimov conseguiu sinteticamente resumir de forma muito completa o que deveria ser as leis fundamentais para robôs. Estas leis, no entanto, não abarcam de forma satisfatória a humanidade. Humanos tem liberdade de agir de acordo com suas crenças e até mesmo de comentar atos que estejam diretamente ligados ao mal de algum outro ser humano.

A diferença fundamental é que os humanos, agrupados em sociedades são obrigados a arcar com as consequências destes atos. Isso nos leva a obedecer uma série de leis e também a nos submeter a punições previstas nestas leis. A liberdade não chega a ser completa, afinal temos que prestar contas e somos submetidos compulsoriamente ao sistema legal e às normais sociais estabelecidas da comunidade em que pertencemos ou daquela em que possamos estar, mesmo que momentaneamente.

Não é de hoje que seres humanos divergem das leis ou organizam movimentos revolucionários em oposição às regras sociais impostas. Este é, no entanto, um assunto para outro post. O que quero trazer hoje e que está diretamente ligado às leis da robótica é a discussão de como poderemos fazer uma transição do estágio atual da humanidade para um outro estágio onde os seres humanos serão animais híbridos.

Nunca se falou tanto em interface homem máquina como nos dias de hoje. Para os mais céticos vale uma observação. Em algum grau já somos seres híbridos quer queiramos assumir ou não esse fato. Muitos já têm smart watches, próteses mecânicas, órgãos eletrônicos como marca passo. Outros já usam câmeras para realizar atividades, gravam recordações em fotos ou vídeos, o que em última análise pode ser considerado como uma expansão da memória biológica e da capacidade cerebral.

A transformação dos seres humanos em seres híbridos, passa por uma discussão mais ampla do que a ética presente nos resultados ou no diferencial competitivo que uma pessoa pode ter em relação às outras pelo uso de tecnologias implantadas.

Máquinas que realizam neuroimagem cerebral e outras que mapeiam a atividade elétrica do cérebro são uma realidade de tendem a ser desenvolver de forma exponencial. A discussão ética, no entanto, parece que chegará atrasada. O uso de equipamentos para mapear a atividade cerebral já é uma realidade, ou melhor dizendo, um lugar comum.

Estas mesmas máquinas já se encontram no estágio de poderem interferir nos sinais cerebrais, decodificando e até mesmo (PASMEM!) Alterar sinais do sistema nervoso que acompanham os processos mentais (SCIENTIFIC AMERICA SETEMBRO 2017)

O uso de tecnologias neurais para alterar pensamentos, interferir em decisões ou mesmo alterar comportamentos até pouco tempo parecia ficção inventada como aquelas que vimos no filme Inception (Em português: A Origem). No entanto, da mesma forma como aconteceu com outras tecnologias ela chegou e se tornou realidade muito antes de termos condições de pensar ou mesmo definir os limites éticos desta tecnologia.

A genialidade humana nas ciências tem demonstrado que se pudermos pensar, imaginar ou sonhar algo, é bem provável que possamos um dia realizar esse algo que um dia só foi possível imaginar em exercícios ficcionais ou devaneios imaginativos.

No entanto a humanidade parece carecer de genialidade social. Ao mesmo passo que a evolução tecnológica avança, também avança a violência, o desrespeito e as demais mazelas humanas. Os avanços são claramente bem-vindos, no entanto quando passamos a falar de tecnologias que podem relativizar nossa individualidade, é bom que a questão ética avance em ritmo mais acelerado do que os usos tecnológicos.

Na índia já temos notícia de que um juiz condenou uma mulher à prisão perpétua, após um exame de imagem cerebral revelar que:

“a mulher apresentava conhecimento experiencial”

Marcello Lenca

doutorando no Instituto para Ética Biomédica na Universidade de Basel e presidente do comitê de estudantes e pósdoutores na Sociedade Internacional de Neuroética., Revista Scientific America Brasil

É interessante que tenhamos chegado a tal ponto, no entanto, perante a grandiosidade de nosso sistema nervoso, não podemos descartar, por exemplo, que assistir a filmes de guerra não provoque conhecimento experiencial semelhante àquele adquirido por um soldado que tenha ido a guerra.

O Facebook já divulgou que pesquisa um sistema que irá traduzir pensamentos em textos. Veja bem, não é voz em texto, mas sim pensamentos! Pensamentos!

Antes de que tais devices sejam implantados ou mesmo utilizados é importante discutir até que ponto os mesmos são reféns de tecnologias reversas, não podendo ou adotando algumas medidas que impeçam seu uso indevido ou mesmo o hackeamento de seu funcionamento.

É fácil encontrar usos não éticos para esses sistemas de intervenção neuronal. Imaginem por exemplo sistemas que possam deixar consumidores mais suscetíveis a compras, ou mesmo que possam decifrar o estado emocional ou transcrever seus pensamentos? O uso desse tipo de recurso demanda praticamente o surgimento de uma nova sociedade.

Como dito anteriormente, o progresso social, infelizmente, não tem progredido no mesmo ritmo acelerado da ciência e da tecnologia. Enquanto tratamos do futuro que já chegou para a ciência, ainda somos tomados pelos problemas de séculos e séculos atrás.

Ainda sofremos ameaças de guerras atômicas, muito ainda passam fome e estão longe de condição minimamente dignas de sobrevivência. Ainda somos preconceituosos, avessos à diversidade de pensamento, credo e orientação sexual. Somos intolerantes com as diferenças dos outros e não raro agimos em prejuízo da coletividade, decidindo por caminhos que prestam apenas a nossos próprios interesses.

Até que esses problemas seculares sejam tratados, é temerário pensar como o avanço da ciência, em especial as neurociências, pode criar novos pontos de tensão a ponto de não poderemos mais garantir nossa liberdade cognitiva, psicológica e de pensamento. Onde vamos chegar? Não sei, mas o debate tem que obrigatoriamente ser realizado mais intensamente antes que avanços e conquistas da ciência sejam indiscriminadamente usados para fins comerciais atendendo a interesses particulares antes dos coletivos.