Um dos principais problemas do descontrole financeiro é a falta de autocontrole. A falta de autocontrole em geral é uma das principais causas de endividamento das famílias, que compram demais, perdem a noção dos gastos e acabam por não poupar para situações emergenciais ou aposentadoria.

Uma das falhas mais recorrentes relacionadas a problemas de autocontrole dos agentes econômicos diz respeito a comportamentos de compra por impulso (Impulse Buying).

Segundo SULTAN, Abdullah J.; JOIREMAN, Jeff; SPROTT, 201s:

 “Aplicado à compra impulsiva, o modelo de força pressupõe que a capacidade de um consumidor em controlar os impulsos de se engajar na compra impulsiva pode: (a) se tornar esgotado temporariamente como resultado de esforços de autocontrole prévios (um efeito de depleção) e (b) Ser construído ao longo do tempo através de exercícios repetidos de autocontrole (um efeito de exercício). ” (SULTAN, Abdullah J.; JOIREMAN, Jeff; SPROTT, David E. Building consumer self-control: The effect of self-control exercises on impulse buying urges. Marketing Letters, v. 23, n. 1, 2012.)

Mas a ciência está em campo para nos dar esperanças de melhorar nosso autocontrole. Pesquisadores da Michigan State University (MSU), publicaram uma pesquisa que indica que conversar consigo mesmo na terceira pessoa pode ser uma forma de aumentar o autocontrole sem a necessidade de grande esforço cognitivo.

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É sabido que muitas vezes o esgotamento cognitivo ou cansaço neural reduz muito nossa capacidade de autocontrole. Resistir a impulsos ou racionalizar decisões demanda grande esforço cognitivo. Assim é normal que ao longo do dia, nossa capacidade cognitiva se reduza, nos deixando mais suscetíveis às armadilhas de consumo ou para tomarmos decisões pouco racionais.

Segundo Professor Jason Moser da MSU:

“Essencialmente, pensamos que se referir a si mesmo na terceira pessoa leva as pessoas a pensarem sobre si mesmas mais parecidas com a forma como pensam sobre os outros, e você pode ver evidências para isso no cérebro”.

O experimento foi realizado em laboratório onde pessoas eram expostas a imagens neutras e imagens que produziam efeitos dolorosos. As evidências mostraram que as pessoas apresentaram menos atividade cerebral em áreas do cérebro relacionadas com experiências emocionais dolorosas, quando tal exposição era realizada num contexto em que a pessoa era direcionada para se referir a ela mesma na terceira pessoa.

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Pode parecer meio subjetivo, no entanto os resultados foram replicados em outra pesquisa realizada pelo Emotion and Self-Control Lab (Emotion and Self-Control Lab) também da MSU, sendo os resultados coerentes com as descobertas do primeiro experimento realizado.

Então como vimos, pode ser que conversar sozinho não seja necessariamente um sinal de insanidade mental. Pessoas conversando consigo mesmas ou mantendo certo nível de introspecção, se treinarem fazer isto conversando com si mesmos na terceira pessoa, podem sim ter um grande aumento do autocontrole.

Em momentos decisivos é importante saber identificar nossa fadiga cognitiva ou pelo menos alguns sinais dela. Quando identificar um possível esgotamento ou cansaço, aproveite a ajuda da ciência e crie uma estratégia para conversar consigo mesmo. Reflita sempre tratando na terceira pessoa, sobre a decisão ou conduta que você esteja prestes a tomar.

Talvez possa parecer meio coisa de maluco, mas dada a quantidade de decisões e compras por impulso que fazemos todos os dias e também considerando que nosso sistema 1 (rápido, emocional e sujeito a heurísticas e vieses) atua em aproximadamente 95% de nossas decisões….

O pior que pode acontecer é você retardar a decisão e isso por si só já terá sido uma oportunidade para que seu sistema 2 (lento e racional) possa ser ativado. Vale o risco!

Da minha parte vou logo dizendo que já estou testando. Afinal um pouco de ciência não faz mal a ninguém!