Já ouviu falar do efeito da reversão da experiência? Todos temos a inclinação natural a procurar por especialistas para solucionarem problemas ou prestarem serviços nas mais diversas áreas do conhecimento. Mas estudos tem mostrado que nem sempre procurar um especialista pode ser a melhor ideia. Será mesmo?

Como não sou especialista no assunto, vou tentar esclarecer. (rsrsrsrs).

Em geral parece natural que as opiniões de especialistas em determinadas áreas são mais confiáveis do que de profissionais não especialistas. Isso porque julgamos que em qualquer situação possível, uma pessoa que tenha maior conhecimento teórico e prático (especialista) em determinada área do conhecimento, produzirá os melhores resultados.

Dessa forma estabelecemos, pela lógica, que os especialistas apresentam alguma vantagem em relação aos não especialistas, generalistas ou mesmo em relação aos iniciantes.

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Muito de nosso comportamento e mind set pressupõe que especialistas são sempre a melhor alternativa a ser contratada ou consultada no mercado. Isso porque estamos acostumados a acreditar nas relações:

MAIS CONHECIMENTO = MELHORES RESULTADOS

MAIS CONHECIMENTO = MELHORES DECISÕES

MAIS CONHECIMENTO = MELHORES DIAGNÓSTICOS

Mas o que nem tudo que nos parece intuitivo é confirmado pela ciência.

Alguns pesquisadores vêm desenvolvendo estudos onde apontam que em determinadas situações, especialistas podem apresentar piores resultados e decisões que profissionais menos qualificados ou iniciantes.

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É algo preocupante pensar que especialistas nem sempre produzem os melhores resultados. Afinal estamos quase sempre recorrendo a eles, acreditando que sejam a melhor escolha para nossas necessidades.

É muito difícil pensar que um especialista em algo pode, em algum momento nos oferecer um resultado pior em relação a algo do que um outro profissional não especialista.

A Economia comportamental tem produzido pesquisas sobre o tema, mas neste post vou destacar o Efeito da Reversão da Experiência.

Efeito de reversão da experiência

Estudo realizado por pesquisadores da University Health Network, Toronto, Ontario, Canadá mostram que o uso de checklists pode aumentar a carga cognitiva resultando no efeito de “reversão da experiência” (expertise reversal effect).

Segundo os pesquisadores:

“As listas de verificação são ferramentas comumente propostas para reduzir o erro. No entanto, quando aplicadas por especialistas, listas de verificação têm o potencial de aumentar a carga cognitiva e resultar em “reversão de experiência”. ” (KALYUGA, Slava. Expertise reversal effect and its implications for learner-tailored instruction. Educational Psychology Review, v. 19, n. 4, p. 509-539, 2007.)

Essa reversão seria consequência de uma espécie de desvio cognitivo em especialistas. Uma vez que sejam apresentados a mais informações, protocolos padronizados ou checklists, os especialistas sofreriam distrações e sobrecarga cognitiva que os impediria de acessar de forma ótima os conhecimentos “automatizados” para a solução das tarefas.

Em experimento relatado por Kalyuga et al. (2007), ao submeter alunos a diferentes formas e intensidades de aprendizado, foi verificada a reversão da experiência quando alunos já extremamente capacitados eram expostos a elementos com informações consideradas redundantes. Segundo o autor:

“Se a informação é redundante depende do nível de experiência do aluno: o que é essencial para iniciantes pode ser redundante para alunos mais conhecedores ou para os mesmos alunos em estágios de instrução posteriores. Como consequência, os formatos integrados que são eficazes para novatos podem ser ineficazes para alunos mais experientes. Semelhante ao visual, as explorações auditivas também podem se tornar redundantes quando apresentadas a alunos mais experientes.” (KALYUGA, Slava. Expertise reversal effect and its implications for learner-tailored instruction. Educational Psychology Review, v. 19, n. 4, p. 509-539, 2007.)

 Kalyuga et al. (1998) demonstraram que a relação entre a atenção dividida e efeitos de redundância prejudicam a cognição à medida que o aluno ganha mais conhecimentos. Para os não especialistas, utilizar informações de protocolos padronizados ou checklists ajuda a garantir melhores resultados nas tarefas executadas. No entanto, ao expor especialistas às informações adicionais já conhecidas tende a criar apenas sobrecarga desnecessária, dificultando o processo cognitivo e não raro levando a piores resultados. O estudo mostra ser mais eficaz, representações gráficas como diagramas, gráficos ou fluxogramas mais concisos para aprimorar o aprendizado de especialistas.

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É possível ainda que haja um efeito semelhante a sobrecarga de informações nestes casos. Expostos a longos textos ou instruções, os especialistas têm sua concentração prejudicada e podem ser enviesados no momento de definir a conduta para seguir com a tarefa. Estes guidelines e todo tipo de protocolo ou procedimento, se não utilizado de maneira adequada, como visto no experimento com os estudantes acima, piora o resultado dos especialistas no desempenho de suas funções.

Não consulte o Dr. Google antes de ir a um médico especialista

Na área da saúde e em diversas outras áreas e profissões o Google tem se tornado uma dádiva e um tormento ao mesmo tempo. Ter acesso a toda base de pesquisa e conhecimento e ainda todas as funcionalidades que o Google vem disponibilizando como maps, docs e muitos outros é inquestionavelmente uma dádiva.

Mas imaginem como o excesso de informação pode atrapalhar quando formos a um especialista?

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Imaginem levarmos à consulta médica: listas de sintomas, exames mais indicados e até mesmo tratamentos e remédios aplicáveis aos sintomas que estamos sentindo? Qual efeito esse monte de informação, relevante para nós, mas redundante para o médico especialista pode causar?

É muito difícil nos dias de hoje, não pesquisar sintomas no Google. Mas temos que ser cuidadosos para não provocar nos médicos, mesmo que de maneira discreta, o efeito da reversão da experiência. Isso sem falar que podemos induzir a uma sobrecarga de informações.

Eu não sei vocês, mas hoje indo ao especialista, se não conseguir deixar de pesquisar no Google os sintomas, vou evitar discutir os mesmos com médico durante a consulta. Afinal não quero reverter a experiência dele na leitura que fiz da pesquisa do Google.

PS.: O mesmo raciocínio vale para mecânicos, dentistas, chefs de cozinha…