Quem nos dias atuais consegue viver sem uma boa consulta aos sites de notícias, redes sociais e aplicativos que nos informam em tempo real tudo que está acontecendo no mundo?

Eu confesso que não abandono facilmente o noticiário, mas nos últimos tempos tenho refletido com mais cautela sobre as notícias que leio, seja online ou offline. Em especial no dia de hoje, me chamou a atenção uma matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo. Reproduzo a manchete abaixo:

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor

 A manchete, não sei se vocês perceberam, tem uma abordagem no mínimo maliciosa, que pode levar o leitor desatendo a absorver uma mensagem que não tem amparo na razoabilidade, nem muito menos fundamento analítico rigoroso. Apenas avaliando a manchete temos bem facilmente identificados três vieses: excesso de confiança, heurística da confirmação e viés do otimismo.

Mas nem tudo são heurísticas e vieses. Antes de irmos para essa parte, acho válidas algumas considerações referentes ao texto, onde há claramente uma “tendenciosidade” referente às causas e efeitos das previsões dos economistas que mais acertam.

Logo no primeiro parágrafo temos a seguinte afirmação:

 “Parte dos economistas de mercado já prevê inflação abaixo de 3% em 2017, movimento inédito e que pode levar os preços medidos pelo IPCA a encerrar o ano pela primeira vez abaixo do piso estabelecido pelo Banco Central desde que o regime de metas foi criado, em 1999.”(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor)

O fato dos economistas preverem a queda da inflação dificilmente é condição suficiente para que o IPCA encerre o ano abaixo do piso da meta. É interessante verificar que não existe nenhuma relação das previsões feitas pelos economistas com o resultado efetivo do índice (IPCA). O resultado depende das variáveis de preço que compõem o IPCA, mas a matéria não deixa isso muito claro e deixa a entender que o fato de os economistas estarem projetando uma queda seja suficiente para que o IPCA caia de maneira efetiva.

Para esclarecer vou explicar e exemplificar com trechos da reportagem. Vamos então aos vieses:

1 – Excesso de confiança

Viés se apresenta quando alguém acredita ter uma capacidade muito maior do que pode ser verificado de forma objetiva e prática.

No caso da reportagem, vemos a repórter claramente numa postura de acreditar que os economistas que mais acertam, tem maior capacidade de prever aquilo que irá acontecer no futuro.

No entanto, as previsões são baseadas em pressupostos, dados históricos e impressões muitas vezes pessoais. Nada contra esse tipo de trabalho, no entanto não existe correlação causal entre o acerto de previsão de hoje com o acerto de previsões passadas.

Sem falar que eventos disruptivos, inesperados e por isso impossíveis de estarem presentes em previsões, não são, na grande maioria das vezes, considerados nesses tipos de estimativas.

Assim, o título da matéria apresenta claramente um caso em que o viés da confiança atuou associando experiência pretérita e acertos de previsões para atribuir maior confiabilidade à reportagem e aos dados que ela reforça.

Vejamos como foi tratado na matéria:

 “Para os analistas mais certeiros nas previsões de curto prazo consultados semanalmente pelo BC para o Boletim Focus, a inflação vai ficar em 2,94% no ano, segundo a mediana das estimativas. Há cinco semanas seguidas, esse grupo (chamado de Top 5 de Curto Prazo) revê para baixo as projeções para a inflação.”(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor)

Viés se apresenta quando alguém acredita ter uma capacidade muito maior do que pode ser verificado de forma objetiva e prática.

No caso da reportagem, vemos a repórter claramente numa postura de acreditar que os economistas que mais acertam, tem maior capacidade de prever aquilo que irá acontecer no futuro.

No entanto, as previsões são baseadas em pressupostos, dados históricos e impressões muitas vezes pessoais. Nada contra esse tipo de trabalho, no entanto não existe correlação causal entre o acerto de previsão de hoje com o acerto de previsões passadas.

Sem falar que eventos disruptivos, inesperados e por isso impossíveis de estarem presentes em previsões, não são, na grande maioria das vezes, considerados nesses tipos de estimativas.

Assim, o título da matéria apresenta claramente um caso em que o viés da confiança atuou associando experiência pretérita e acertos de previsões para atribuir maior confiabilidade à reportagem e aos dados que ela reforça.

Vejamos como foi tratado na matéria:

 “Para os analistas mais certeiros nas previsões de curto prazo consultados semanalmente pelo BC para o Boletim Focus, a inflação vai ficar em 2,94% no ano, segundo a mediana das estimativas. Há cinco semanas seguidas, esse grupo (chamado de Top 5 de Curto Prazo) revê para baixo as projeções para a inflação.” (Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor)

2 – Heurística da confirmação

Tendência inconsciente a buscarmos evidências que confirmem nossas hipóteses ignorando outras que contradizem nosso ponto de vista.

Para confirmar a afirmação que dá título à matéria, a repórter utiliza, além dos “economistas mais certeiros” como visto acima, mais algumas declarações e informações com objetivo de reforçar o endosso a expectativa relatada na matéria de queda na inflação.

Para isso a repórter abusa das referências:

 “Segundo economistas, os preços administrados como os de energia elétrica, gás e gasolina, além da supersafra de alimentos, vêm surpreendendo positivamente.”,

 “Esses dois grupos (alimentos e preços administrados), diz Rodrigo Melo, da Icatu Vanguarda, estão levando o mercado a prever uma deflação do IPCA em junho, a primeira desde 2006.”

 “Mas o quadro benigno pode ser afetado por choque no preço do petróleo, falta de chuva ou até pelo contágio do câmbio pela crise política, diz Leonardo Costa, da Rosenberg Associados (um dos que estão no Top 5 do BC). Mas ainda acho que o risco maior é de a inflação terminar o ano abaixo de 3%.” Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor

4 – Viés do otimismo

As pessoas tendem a superestimar a probabilidade de eventos positivos e subestimar a de eventos negativos. Por exemplo, podemos subestimar o risco de sofrer um acidente de carro ou de ter câncer em comparação com esse mesmo risco para outras pessoas. Vários fatores podem explicar esse otimismo irrealista, entre eles os vieses de auto interesse, controle percebido, estar de bom humor etc. Um possível fator cognitivo que foi identificado com o viés do otimismo é a heurística da representatividade (Shepperd, Carroll, Grace e Terry, 2002).

Aqui acredito ser um dos pontos onde o viés está mais evidente. Superestimar probabilidade de eventos positivos é algo muito claro na matéria no trecho:

 “O inusitado disso tudo é que, em 18 anos, a meta de inflação foi descumprida em 2001, 2002, 2003 e 2015 -nunca por ficar abaixo do piso. Em todos os anos, coube ao presidente do BC explicar por que os preços ficaram acima do teto da meta, como fez Alexandre Tombini em 2015, quando o índice ficou em 10,67%.” Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1896315-economistas-que-mais-acertam-ja-preveem-inflacao-abaixo-de-3.shtml?cmpid=newseditor

Um comentário adicional: mesmo evidenciando histórico e 18 anos de descumprimento da meta o otimismo supera esse fato, e a matéria fecha com um otimismo quase exotérico.

É importante reforçar que as previsões são importantes e muito úteis para gestão das expectativas. No entanto a forma de divulgar e repassar estas previsões pode ser melhorada evitando que aqueles que não tem fluência econômica assumam as mesmas como verdades absolutas.

Para os agentes econômicos menos atentos aos limites e vieses que previsões econômicas podem apresentar, a divulgação de matérias como esta publicada pela Folha de São Paulo, pode induzir comportamentos indesejados e excessivo apetite para assumir riscos.

Uma solução seria evidenciar cenários tentando apresentar análises que levem em conta fatores impossíveis de prever ou choques inesperados que impactem fortemente variáveis constates nas projeções. Com isso aqueles menos fluentes nas metodologias e limitações das projeções econômicas poderiam escalonar e alocar seus riscos de forma mais consciente e menos crédula.