Sempre que recebo algum e-mail ou vejo alguma promoção de livros, logo vou me interessando em avaliar a lista dos títulos que estão lá disponíveis com preços razoáveis. Mas como a maioria dos leitores tenho alguns filtros para compra de livros.

Claro que a capa importa muito, mas já resisto aos impulsos de comprar um livro apenas pela capa. A estratégia é clara: se gostar da capa tem que ler a sinopse. Ler a sinopse acaba me protegendo de alguns vieses importantes que a capa pode ativar.

Sabemos que nosso cérebro é influenciado por uma série de fatores. Temos por exemplo a influência das cores que ativam nosso sistema neural associando preferências visuais à capa do livro. Há ainda uma série de capas de livros muito parecidas.

Não sei se isso constitui um Nudge, mas sempre que vejo livros de autores diferentes com a mesma base de ilustração na capa, fico pensando que o objetivo é apenas nos confundir, apropriando uma associação positiva de outra experiência de leitura para títulos e autores que podem não estar necessariamente dentro de nossas preferências.

Existe também uma estratégia de venda de livros que sempre critiquei bastante e que nos últimos anos tem se tornado ainda mais “criticável”. As contracapas em geram vem com declarações de pessoas famosas ou trechos de reportagens de revistas de grande circulação que atestam a qualidade do livro.

Nos últimos anos, porém, tenho visto até mesmo em capas aquele tipo de referência. Alguns títulos de literatura por exemplo vêm associando o nome do autor George R. R. Martin na capa.

A associação, longe de ser apenas o endosso da qualidade da publicação, mostra uma certa malandragem das editoras, que em Economia Comportamental chamamos carinhosamente de Nudge.

Mas os Nudges com nomes de autores famosos em capas de livros não escritos por eles, não são necessariamente bem vistos ou adequados. É claro que do ponto de vista comercial, eles atendem perfeitamente aos seus objetivos: aumentar as vendas.

Se avaliarmos, no entanto, do ponto de vista dos consumidores, há claramente uma tentativa em confundir o processo decisório. Associando um nome como o do autor George Martin a um livro não escrito por ele, claramente a editora está tentando transferir a experiência do leitor com o autor para outro autor.

É exatamente nesse ponto que pessoas como eu, podem ser induzidas a uma decisão não necessariamente ótima. O nome do autor que recomenda um livro ser posicionado na capa do livro recomendado exerce uma influência enorme no processo de escolha. Eu mesmo confesso ter comprado um livro pensando ser do George Martin e quando, passado o impulso da compra, percebi que era de outro autor…. Pensei em reclamar com a editora, pensei em trocar o livro e pensei ainda em um monte outras coisas censuráveis. Por fim resolvi escrever este post.

É complicado perceber que estamos a todo momento correndo risco de sermos fisgados como tolos, para usar o termo consagrado pelos ganhadores do nobel de economia George A. Akerlof e Robert J. Shiller.

Sites de venda de livros também não perderam tempo e adotaram rapidamente a estratégia de ter um autor na capa para vender. Um dos casos mais escancarados para mim, como já citei acima, é do autor George R.R. Martin. O livro Ruas Estranhas é um bom exemplo da estratégia.

Na capa vemos a mesma formatação dos livros consagrados da saga Game of Thrones, porém… George Martin escreveu duas páginas no livro apenas o restante do livro foi escrito por uma série de outros autores. A lista é grande, cito os principais: Charlaine Harris, da série True Blood, Conn Iggulden, da série O imperador, Glen Cook, Patricia Briggs e Diana Gabaldon.

Na estratégia de venda de determinado site a página correspondente ao livro está como reproduzo abaixo:

Não tem como ver a estratégia de venda com bons olhos. Afinal, o leitor desatento é claramente induzido a pensar que está comprando uma obra de George R. R. Martin. Mas a verdade é bem diferente disso.

Para evitar ser fisgado com um tolo, como disse no início, tenho criado uma série de requisitos prévios para comprar livros. Primeiro claro vem a capa, depois o autor, assunto, sinopse, críticas, avaliações em aplicativos de leitores e por aí vão mais uma série de critérios.

O importante aqui nem são os critérios que tenho para as escolhas, mas sim evitar que faça a compra por impulso. Os critérios hoje são para mim uma espécie de padrão de qualidade. Assim programado para verificar a qualidade do livro antes de comprar, eu tenho evitado muitas compras por impulso de livros que gostaria verdadeiramente de comprar.

Para mim tem dado certo. Pelo menos nos últimos meses tenho verificado que não comprei nenhum livro em que o autor na hora da compra tenha sido diferente do autor que escreveu o livro.