Toda discussão em torno da reforma de previdência poderia ser muito melhor debatida e entendida pela sociedade. Se a essa altura ainda não acontecem debates e protestos mais assertivos, grande parte da culpa se deve à complexidade das regras que regem o sistema público de previdência brasileiro.

A imagem abaixo mostra como pode ser complexo o cálculo do benefício previdenciário. Não vou detalhar as fórmulas aqui, afinal pretendo que não se abale demais e continue a ler este post até o final.

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Referência: NERY, P. F. Errar é Humano: economia comportamental aplicada à aposentadoria. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, fevereiro/2016 (Texto para Discussão nº 188). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos.

Mas a complexidade não para no cálculo do benefício. O sistema atual e a proposta de reforma ainda têm regras de idade, tempo de contribuição, contas diferentes por tipo de atividade (trabalhador rural, privado e público), regras para definir integralidade ou não do repasse do benefício e mais um monte de adereços na lei.

Esse emaranhado de regras, longe de proporcionar um melhor sistema com mínimas distorções e maior equidade, acaba por complicar e distanciar a população daquilo que é justo e direito.

As atuais regras do regime previdenciário brasileiro prestam ainda um enorme desserviço à sociedade, pois complexas como são, impedem que grande parte dos contribuintes entendam como fazer os cálculos e qual regime ou período é melhor para sua situação.

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O resultado disso é a insegurança de muitos em se submeter às regras, não tendo condições de entender, muito menos de questionar. Assim, qualquer mudança de regras proposta pela reforma gera automaticamente sentimento de injustiça e são automaticamente rejeitadas pela opinião pública. Mesmo sem entender direito toda amplitude da reforma proposta para a previdência, a mera constatação da mudança causa uma espécie de pânico generalizado.

Muito do comportamento de pânico acontece, pois, a grande maioria é refém das notícias e análises expostas nem sem de maneira responsável e isenta pela mídia. Há também, pessoas que necessitam recorrer a especialistas ou pesquisar muito para entender quais serão os impactos objetivos para sua situação. Isso demanda tempo, por vezes custa dinheiro e não raro resulta em mais confusão e desinformação.

É interessante perceber que a resistência à mudança, parece ser maior do que o medo de uma completa falência do sistema previdenciário. Ora; temer a mudança é compreensível, mas temer a mudança quando existe a ameaça de extinção e falência completa do sistema chega a ser irracional.

A raiz desse comportamento está diretamente ligada, principalmente, a dois vieses cognitivos: Sobrecarga de informação e Viés do Status Quo.

Como o sistema previdenciário é complexo demais, reagimos de forma defensiva e nesse momento entra em cena o viés do Status Quo.

Viés do Status Quo

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O Viés do Status Quo (status quo bias) é a tendência a preferir manter as coisas na situação em que estão, seja por não fazer nada ou por insistir em uma decisão já tomada, ainda que mudar represente a escolha mais proveitosa. (Núcleo de Estudos Comportamentais (NEC) da CVM.)

Comprar sempre a mesma marca de determinado produto, permanecer no mesmo emprego durante anos, fazer sempre o mesmo caminho até o trabalho, são alguns exemplos de decisões nas quais se opta pela alternativa padrão obedecendo o status quo.

Kahneman, Knetsch e Thaler (1991) afirmam que o ser humano possui uma forte tendência a manter o status quo, pois as desvantagens e o desgaste psicológico de sair da posição atual parecem muito maiores que as vantagens.

Sobre este aspecto temos na visão de Kahneman:

“As desvantagens de uma mudança assomam como maiores do que suas vantagens, induzindo a um viés que favorece o status quo. ” (Kahneman, 2012).

Já em relação à sobrecarga de informações e complexidade de regras do sistema previdenciário, sofremos com o viés de sobrecarga de informações.

Viés Sobrecarga de Informações

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A presença de muita informação no ambiente impede o indivíduo de avaliar e tomar uma boa decisão. (economiacomportamental.org).

O viés de sobrecarga de informações é bem detalhado no TED da pesquisadora Sheena Iyengar, abaixo para quem interessar, com legendas em português.

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É compreensível que o problema da previdência seja amplamente discutido e que reformas sejam propostas a tempo de evitar um colapso maior do sistema no futuro. No entanto, não é razoável que esta mudança não promova uma simplificação do sistema.

Simplificar as regras, evitariam vises importantes como viés do status quo e sobrecarga de informações que muitas vezes paralisam decisões e posicionamentos e retardam a implementação das mudanças. A simplificação, evita ainda que paire sobre legislativo, mais desconfiança de que no fundo as mudanças servem mesmo é para retirar benefícios duramente conquistados ao longo de anos.