Sempre fui apaixonada pela Mary Poppins, aquela babá quase perfeita em todos os sentidos que desce do céu e transforma a vida de uma família britânica tradicional do início do século passado. Assisti ao filme dezenas de vezes mas confesso que no mês passado tive um outro olhar (não menos encantado) sobre o filme que me moveu a relacioná-lo à Economia Comportamental. Por mais distantes que as coisas pareçam ser inicialmente, ao observar como atuam a babá e seu chefe as coisas começam a ficar mais claras.

Basta pensar que Marry Poppins faz pequenas intervenções nos momentos de escolhas que modificam o comportamento dos Banks sem precisar proibir ou remunerar nenhum membro da família. Ou seja, ela usa nudges!

Em contraparte, o Sr. Banks (nome sugestivo, não?) valoriza a precisão, ordem e as regras. Ele é um pai tão preocupado e satisfeito com seus padrões que é incapaz de perceber, nas primeiras cenas do filme, que seus filhos estão desaparecidos depois de fugirem no parque. Um típico economista neoclássico…

“Spoon full of sugar” provavelmente é a canção mais famosa do filme. Nessa cena, ao ver a nova babá que atendia todos os seus requisitos, Jane e Mickael estão no chamado “estado quente”. Ou seja, o sistema 1 estava em funcionamento e eles reagiam de maneira rápida, automática, sem controle.

É nesse exato momento que Poppins chama para arrumar o quarto…

Esse estímulo provavelmente ativa o sistema 2,  as crianças ficam mais conscientes e passam a ponderar de forma mais racional as perdas e ganhos relacionadas a escolha de arrumar ou não o quarto. Para incentivar as crianças a adotar conscientemente o comportamento desejado, ela alerta que todo trabalho tem um elemento prazeroso. Esse nudge aumenta a conveniência e simplifica a realização da tarefa. Mesmo que a vontade de brincar ainda exista, o efeito da recompensa (como do açúcar no remédio) melhora o auto controle e a discilplina individual. Essa pequena alteração na arquitetura de escolha torna os irmãos mais hábeis a resistir à tentação de brincar (ganho de curto prazo).

Depois de algumas peripécias vividas pelos filhos obviamente o Sr. Banks não fica nada feliz. Ao ver as intervenções da babá ele discute sobre a necessidade de moldar as crianças. Em uma cena incrível, Mary Poppins usa os próprios argumentos do pai para convencê-lo a levar os filhos ao banco onde trabalha. Isso reflete a história da própria economia comportamental onde nomes como Kahneman partem de fundamentos econômicos tradicionais para conceber suas teorias. É a partir desse momento que o conflito entre o homo economicus (Sr. Banks) e a economia comportamental (Mary Poppins) se torna mais evidente.

Tudo começa com a canção sobre a vendedora de comida para pássaros. A babá diz que algumas vezes não percebemos como os detalhes podem ser tão importantes (tão economista comportamental!). Ela então conta a história da senhorinha amável que com seu jeitinho especial chama as pessoas para comprar suas migalhas para alimentar os passarinhos famintos. Fica nítido que ela apela para a heurística do afeto. Pronto! As crianças estão dispostas a gastar o dinheiro que tem para cuidar dos pobres passarinhos.

Obs.: Esse é o único momento em que a protagonista me desaponta pois considero que esse nudge deseduca financeiramente as crianças, estimulando-as a escolher os ganhos de curto prazo.

Ao chegar no trabalho, o pai orgulhoso apresenta os filhos ao chefe. O dono do banco, um velhinho que mal consegue se manter de pé, fala sobre a importância de investir. Considerando o fundamento da economia tradicional de que os organismos são maximizadores de utilidade, as crianças são estimuladas a manter o dinheiro são e salvo, fazer parte de grandes conquistas (como as estradas de ferro da África do Sul) e ver floscer uma quantidade generosa, títulos, dividendos, ações, incorporações! Devo admitir que me identifico muito com a carinha confusa das crianças nesse momento…

Entre o estímulo emocional de Mary Poppins e o estímulo racional visto no banco, qual você acha que prevaleceu na decisão do jovem Mickael? Exatamente, o nudge da babá falou mais alto e o menino se nega a entregar seu dinheiro dizendo que quer alimentar os pássaros. O presidente do banco toma o dinheiro da mão do menino que começa a gritar. Os clientes acreditam que o banco se negou a realizar o pagamento de alguém e começam a resgatar suas contas. Em pouco tempo o caos se instaura e o banco interrompe todos os pagamentos dando início a uma crise especulativa. Como os economistas tradicionais, os banqueiros do filme não previam que uma crise dessa dimensão ocorreria porque não consideram o comportamento dos indivíduos na construção de suas previsões.

O resultado é a demissão vexatória do Sr. Banks (coitado). Apesar de desacreditar do que estava acontecendo, o Sr. Banks parece compreender o propósito da babá e retorna para sua família tendo compreendido a importância de observar as pessoas. E assim Mary Poppins se vai, para espalhar seus nudges por outros lugares, certa de que sua missão naquele lugar tinha sido cumprida. O Sr. Banks é recontrato e na minha imaginação aquele banco não voltará a ser o mesmo.