Para entender o texto sobre a violência no metrô de São Paulo, é interessante você estar familiarizado dos seguintes conceitos:

Sistema 1 e Sistema 2, é uma visão popularizada por Daniel Kanheman (https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Kahneman) que encara o funcionamento mental como dividido em 2 sistemas. O sistema 1 é rápido, intuitivo, usa atalhos para tomada de decisões. O sistema 2 é mais lento, tenta ser mais racional e fadiga com maior facilidade.

Regra do dedão é uma expressão inglesa que implica um critério aceito, com base em conhecimento prático, mas sem embasamento científico. (Wikipedia)

É interessante observar a reação das pessoas diante de situações críticas, pois elas revelam vários pontos que podemos fazer links com experimentos que se mostraram válidos em laboratório. O ocorrido esta semana no metrô de São Paulo foi infelizmente mais um momento em que as pessoas se comportaram como o esperado.

Para aqueles que estão emendando o natal no ano novo dormindo e não estão por dentro do ocorrido é o que se segue: o relatado, pelas testemunhas, foi que dois homens estavam urinando em um canto da estação de metrô e foram repreendidos por dois travestis, eles então se voltaram para agredir quem os criticava e então o ambulante que ali ficava, que conhecia e era conhecido dos que frequentavam aquela estação, resolveu defender os travestis. Os dois que estavam urinando em local inapropriado então seguiram para repreender fisicamente, “bater mesmo”, nos que criticaram a situação. As imagens divulgadas, mostram alguns travestis correndo e o ambulante, Luiz Carlos Ruas, sendo perseguido pelos rapazes, e ao ser alcançado foi espancado, e ficou agonizando no chão. Algumas pessoas passavam no local. O ambulante morreu no hospital naquele dia.

As imagens, para quem tiver curiosidade de assistir, são pesadas e mostram alguns comportamentos que acredito serem de extrema importância levantarmos, pois o que vemos é um lado que o ser-humano não gosta de descobrir que tem.

Link para o vídeo

Em um primeiro momento, choca ver a violência da atitude dos dois rapazes, mas choca também ver várias pessoas passando e apenas olhando. Eis aí o primeiro ponto da economia comportamental que gostaria de compartilhar com vocês.

1 – Nada garante que você iria ajudar, mas você jura de pés juntos que ajudaria.

Uma das fontes que eu me arrependo amargamente de ler com constância é a sessão de comentários de sites populares. A intolerância ali brota com a mesma facilidade que erva-daninha em jardins malcuidados. Porém é uma fonte rica de informações que nos incomodam, sim eu sei que é contraditório. Um comentário que ocorreu repetidamente nesses locais foi “como ninguém fez nada, se eu estivesse ali teria defendido”.

Quando você resolve se planejar ou julgar alguma decisão futura sua, imediatamente seu sistema 2 se sobressai e relata qual será seu provável futuro comportamento. O grande problema desse brilhante método cerebral é que ele prediz o comportamento, no chamado por Lowenstein, de estado frio. Longe do turbilhão de emoções que seria suscitado no real momento do ocorrido, tendemos a achar que nosso comportamento seria muito mais exemplar do que realmente é em momentos difíceis e reais. Vai falar que você nunca imaginou argumentando vários pontos inteligentes e no calor da discussão não usou metade dos quais havia pensado?

O experimento de Nisbett e Borgida (1975) demonstra muito bem isso. Nele, os candidatos deveriam, aos pares, se direcionar para cabines opacas e deveriam se comunicar via intercomm com o outro participante. O grande diferencial desse experimento era que após um tempo, um dos participantes, que era ator, começava a “passar mal” e com a voz abatida ouvia-se um barulho de um corpo caindo, como se estivesse sofrendo um ataque. Apesar do pensamento coletivo de que alguém passando mal deveria ser ajudado, 73,3% dos participantes não ajudaram o outro candidato.  Uma das hipóteses levantadas é da diluição de responsabilidade, uma vez que sabemos que existem mais pessoas no local, dividimos nosso ônus e o peso de não assumir algo, com elas. Também me questiono se a inércia nessas situações não se origina em pensar “alguém tomará a atitude”. Você consegue enxergar esse ponto nos vídeos do metrô?

Isso nos leva para nosso segundo ponto do vídeo.

2 – O efeito manada e seu incrível poder de fazermos o absurdo, para o bem e para o mal.

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Que somos seres sociais isso não discutimos, formamos boa parte do nosso repertório de comportamentos assimilando o de outras pessoas. O que é chamado de Mirror Neuron System (Sistema do neurônio espelho, trad. literal) faz com que imitemos comportamentos emocionais de outros. Fazemos isso, por exemplo, ao nos inserirmos em um grupo, ou como pegamos hábitos com nosso par amoroso, ou até mesmo o estudo do Dr. Nicholas Christakis e James Fowler (2007) que nos mostra que tendemos a engordar quando pessoas próximas de nós engordam.

O efeito manada é a ideia de que tendemos a imitar o comportamento dos outros em momentos de incertezas, na ausência de parâmetros mais palpáveis observamos os nossos semelhantes e tomamos a decisão de segui-los; não quero dizer aqui que este comportamento é consciente e totalmente “irei seguir ele por não saber o que fazer”, apenas seguimos o fluxo.

Ao ver o vídeo percebemos que as pessoas ficaram paradas olhando, não dá para saber quem foi o líder da manada inerte que só observou toda ação violenta no metro, mas observamos que na incerteza todos ficaram parados. O oposto também é visto em outras situações do jornalismo, quando o indivíduo tende a reagir e o grupo se rebela  ocasionando os linchamentos que ocorreram recentemente no Brasil. Pessoas que individualmente não fariam nada ou não fariam mal a ninguém, mostram um comportamento totalmente discrepante quando inseridos em um grupo.

O que nos leva ao nosso último tópico

3 – Os jovens quando presos, alegaram ser cidadãos de bem.

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Não vou entrar no mérito do que eles sejam, cidadãos de bem ou não, ou do nível de culpabilidade de cada um, isso foge totalmente do meu papel aqui. Mas a alegação de ser um “cidadão de bem” mostra vários pontos.

Primeiro, tendemos a nos separar por bons e maus. Eu bom e eles maus. Esse tipo de alegação é infundada por “N” motivos. Marshall Rosenberg cita em seu excelente livro Comunicação Não Violenta, somos criados em culturas que existem os mocinhos, os bons, e os maus, e isso é internalizado de tal forma que enxergamos de fato como verdade. É uma tarefa árdua entendermos que ‘O Outro’ possui pontos que são vistos como positivos por outras pessoas. Rosenberg ainda cita culturas em que as pessoas não são criadas com essa cisão entre bem/mau e são culturas geralmente mais pacíficas.

Onde quero chegar é que tomamos decisões geralmente pela regra do dedão e simplificamos as situações entre eu bom e o outro mau e isso facilita o julgamento dos outros rápido demais. Ignoramos que somos os outros para quem não nos conhece.

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O fato de estudar a Economia Comportamental, e ser psicólogo, são exercícios que considero também de conhecimento interno. Frequentemente vemos que temos razões embasadas no senso comum de achar que estaremos acima da média, que nosso comportamento será exemplar ou ainda que somos seres 100% bons. Mas ao observar experimentos de laboratório e de campo, vemos que não temos razões para afirmarmos com tanta convicção que seremos diferentes dos demais. Observe os testes sobre corrupção de Dan Ariely para ter uma base, mas esse é assunto esse para outro tópico.

Em tempo:

Luiz Carlos Ruas defendeu pessoas que aparentemente ele conhecia, dai podemos gerar a hipótese de porque ele não ficou parado e atônito na situação que iniciou todo o conflito. Uma atitude realmente corajosa deste cidadão.

[toggle title=”Hindsight Effect” load=”show”]É um fenômeno psicológico que faz com que eventos – após o ocorrido – pareçam mais claros do que realmente eram quando a situação ocorreu. Em outras palavras, depois que a situação passa, tudo fica evidente e mostra o quanto era previsível sua ocorrência, depois que a situação passou ficou visível que as pessoas deveriam ter ajudado Luiz Carlos, esse assunto também é para outro tópico.[/toggle]

Para Psicanálise, a formação reativa é um mecanismo de defesa do inconsciente usado por indivíduos que desejam esconder ou camuflar desejos e sensibilidades traumáticos na infância (Wikipedia). Eles tendem a externalizar o desejo intrínseco de forma oposta a como se sentem internamente e o demonstram com indiferença, aversão ou agressivamente. Tenho a hipótese de que pessoas que são espalhafatosas demais e demonstram afinco excessivo em defender alguns pontos, de maneira até infantilizada, usam esse mecanismo. Vide exemplos de pessoas públicas que defendem costumes e boa moral, e de tempos em tempos são pegas em escândalos que são contrários ao que pregavam vigorosamente. Atitudes homofóbicas agressivas não poderiam levantar essa ideia? Fica aqui o debate.

– REFERÊNCIAS

Nisbett e Borgida (1975) – Fonte primária, Rápido e Devagar duas formas de pensar – Daniel Kanheman

Nicholas Christakis e James Fowler, acessado em: https://dash.harvard.edu/bitstream/handle/1/3710802/Christakis_SpreadofObesity.pdf?sequence=2

Marshall Rosenberg – Comunicação não violenta